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Crédito, Júlia Dias Carneiro
- Author, Júlia Dias Carneiro
- Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
- Published Há 1 hora
- Tempo de leitura: 8 min
Os pedreiros abriram buracos para as colunas que dariam um segundo andar à casa da família, que deveria ter bastante espaço para as três filhas pequenas do casal poderem correr e brincar.
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Mas, na hora do almoço, um deles, seu José, sentou-se ao lado de Merced, intrigado com o que tinha visto.
"Nas escavações dos buracos, encontramos muitos ossos de cachorro. Acho que os antigos proprietários enterravam ossos no quintal!", ele contou a Merced, como ela relembra à BBC News Brasil.
Aquela tarde acabaria mudando a vida dela para sempre e descortinando um processo de transformação na região portuária do Rio de Janeiro. Leia também: 4 grandes mudanças no Reino Unido 10 anos após o Brexit (e quais as chances
Foi a primeira casa própria da família, que antes morava de aluguel. Depois de conseguir fazer a compra, se mudaram para lá e ficaram mais seis anos juntando dinheiro, até finalmente terem economizado para uma reforma muito necessária.
O imóvel, no bairro da Gamboa, datava de 1866, quando a ocupação residencial da região portuária se estabeleceu. Merced achou estranha aquela história dos ossos e pediu para ver.
"Fui lá, mexi nos entulhos e encontrei uma arcada dentária de um adulto. Falei, 'Seu José, isso não é de cachorro, é de gente! Olha só. É igualzinha à nossa.' Ele fez o sinal da cruz", lembra ela.
"Aí tinha uma arcada dentária pequenininha. Eu falei: 'Seu José, isso aqui é de uma criança'. Aí, ele começou a chorar. Todo mundo ficou ali parado, olhando. Fui botando os ossos em um cantinho, depois separando em caixas. Tinha muito osso quebrado."
Seguiu-se uma sessão de especulação. "Pensamos mil coisas. 'Os antigos donos da casa mataram pessoas e enterraram aqui!' Ou então, 'Não, é um serial killer [assassino em série]!'" Mais de mundo
No mesmo dia, Merced chamou um vizinho entendido na história da região portuária. Ele chegou à sua casa com um livro antigo. Um mapa indicava o caminho para um cemitério próximo aos mercados onde se vendiam pessoas escravizadas.
"Ele falou: 'Você mora em cima de um cemitério. Você acaba de descobrir o cemitério dos escravizados'", lembra Merced.
"Eu falei, 'Caraca. O que eu faço com isso?'." Leia também: 4 grandes mudanças no Reino Unido 10 anos após o Brexit (e quais as chances
'Essa história era escondida'
O dia marcou a redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou entre aproximadamente 1770 e 1830, e onde Merced estima que 40 mil pessoas tenham sido enterradas.
A expressão "pretos novos" era usada para designar os cativos recém-desembarcados no Brasil, que ainda não falavam português.
"Hoje, digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro", diz Merced, com os olhos marejando ao lembrar do impacto de ver as ossadas sob a própria casa, inclusive arcadas dentárias miúdas com botõezinhos de dentes permanentes ainda nascendo.
"A gente não tinha ideia dessa história", lembra Merced, que mora na região portuária desde menina.
"Ninguém comentava que aqui havia sido um entreposto de venda de pessoas para a escravidão. Essa história era escondida."

'Valas onde corpos eram jogados'

'Um lugar singular'


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