Tunísia x Japão: modelo matemático aponta possível resultado do jogo; veja
Ler matéria →O modelo de negócios que consiste em listar uma empresa em bolsa para acumular criptomoedas está se desfazendo. As companhias ainda na fila para fazer isso por meio de empresas de cheque em branco enfrentam pressão crescente de investidores em um ambiente de mercado cada vez mais desfavorável.
Um dos casos mais emblemáticos é o da ReserveOne, gestora de ativos em criptomoedas com sócios de peso, incluindo o ex-secretário de Comércio dos EUA e magnata do private equity Wilbur Ross. A empresa havia firmado acordo para se fundir com a M3-Brigade Acquisition V Corp., uma SPAC (veículo com propósito específico de aquisição, na sigla em inglês), veículo cujo único objetivo é encontrar uma empresa para adquirir e levá-la a bolsa. Ross não participou financeiramente do negócio, mas estava previsto para integrar o conselho da ReserveOne após a conclusão da operação.
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O acordo, avaliado em US$ 1 bilhão, desmoronou depois que pelo menos dois grandes investidores da ReserveOne exigiram o cancelamento da venda, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Esses investidores acreditavam que as ações da companhia inevitavelmente seriam negociadas com desconto em relação ao valor patrimonial líquido após a listagem, em razão da queda acentuada do Bitcoin (BTC) e de outros tokens desde o anúncio da fusão, quase um ano antes. Somadas às taxas devidas a intermediários pela conclusão do negócio, a operação simplesmente deixou de fazer sentido, disseram as fontes, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a falar publicamente. Em 12 de junho, as duas empresas anunciaram oficialmente o encerramento do acordo.
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Um porta-voz da M3 recusou comentar. A ReserveOne não respondeu aos pedidos de entrevista.

O fracasso da transação ReserveOne-M3 é sintomático dos problemas enfrentados pelas empresas de tesouraria em ativos digitais que tentam chegar ao mercado via SPAC. Outras com planos semelhantes também fracassaram ou registraram desempenho pífio desde a estreia. Leia também: Kim Kataguiri desiste de candidatura ao Governo de São Paulo
A Avalanche Treasury, por exemplo, concluiu sua fusão com a SPAC Mountain Lake Acquisition em 11 de junho, mas foi implacavelmente castigada pelo mercado desde então. Suas ações recuaram quase 90% em relação ao valor do dia em que os acionistas aprovaram a combinação, chegando a cerca de US$ 0,85 na quinta-feira. Um porta-voz da Avalanche Treasury direcionou a Bloomberg a um comunicado sobre a estreia na Nasdaq e recusou comentários adicionais.
O modelo das tesourarias de cripto efetivamente deixou de funcionar quando captar recursos via emissão de ações para comprar criptomoedas passou a ser diluidor para as companhias, avalia Jan-Philip Grabs, sócio da consultoria de ativos digitais Areta. Algumas dessas empresas chegaram a se apresentar não apenas como acumuladoras de cripto, mas como plataformas de pagamentos ou operadoras de outras atividades mais relevantes.
“Esperamos que este mercado em baixa funcione como um filtro decisivo para a categoria: algumas dessas empresas vão aproveitá-lo para construir um modelo operacional genuíno e fazer aquisições com retorno positivo, enquanto outras permanecerão como veículos de mercado de capitais sem negócio subjacente e terão dificuldade para sobreviver enquanto os preços dos tokens permanecerem deprimidos”, disse Grabs.
A queda
Michael Saylor foi o pioneiro do modelo, em 2020, ao transformar sua empresa de software MicroStrategy em uma máquina de acumulação de Bitcoin. A estratégia ganhou tração: as ações da companhia, hoje chamada Strategy, chegaram a superar US$ 500 em 2024. Uma série de empresas, entre elas Metaplanet, BitMine, Twenty One Capital e SharpLink, adotaram a mesma abordagem no ano seguinte ou no mesmo período.

Hoje, as ações da Strategy fecham a US$ 112,53. O próprio Bitcoin acumula queda de cerca de 50% desde o pico registrado em outubro passado, deixando boa parte das empresas que tentaram replicar a estratégia de Saylor em situação delicada. Mais de economia
Entre as que ainda aguardam na fila está a BSTR Holdings. Uma SPAC ligada à Cantor Fitzgerald firmou acordo para se fundir com a BSTR em transação com até US$ 1,5 bilhão em financiamento por emissão de ações, anunciada em julho do ano passado, mas o futuro do negócio está em xeque.
A SPAC vinculada à Cantor agendou uma votação para 26 de junho sobre a continuidade da fusão, segundo registro recente. O conselho recomenda unanimemente a aprovação, mas o resultado ainda é incerto.
A BSTR é liderada por Adam Back, cofundador e CEO da Blockstream, empresa de infraestrutura para Bitcoin. O criptógrafo britânico ganhou notoriedade recentemente após o New York Times sugerir que ele seria Satoshi Nakamoto, o pseudônimo do criador do Bitcoin, o que ele nega. Leia também: O queijo cottage sumiu nos EUA. E a culpa é do TikTok
A gestora de investimentos Meteora Capital participou tanto da BSTR quanto da ReserveOne por meio de um instrumento conhecido como PIPE (investimento privado em ações, na sigla em inglês), segundo as fontes, o que significa que aportou capital após negociar condições privadas com os patrocinadores. Como investidores em PIPE têm menos poder de decisão do que os patrocinadores, a Meteora também construiu posições nas SPACs relacionadas no mercado aberto, disseram as fontes. A gestora vinha pressionando para que os negócios não fossem concluídos, dada a deterioração dos fundamentos, acrescentaram.
Representantes da Meteora e da Cantor Fitzgerald recusaram comentar. A BSTR não respondeu à solicitação de entrevista.
Outras empresas de tesouraria cripto que buscavam concluir fusões via SPAC permanecem em situação indefinida, à medida que os fundamentos financeiros dessas operações se inverteram. As tesourarias de cripto com ações já negociadas em bolsa acumularam perda de cerca de US$ 62 bilhões em valor de mercado entre o pico do Bitcoin em outubro e o início de junho, conforme a Bloomberg noticiou anteriormente com base em dados da Artemis.
“Apenas empresas com operações reais no setor de ativos digitais vão sobreviver no longo prazo”, afirmou Alexander Blume, CEO da gestora de criptoativos Two Prime. “As DATs que pretendem apenas replicar o manual de Saylor terão dificuldades daqui para frente.”
Uma aposta cara
Até pouco tempo atrás, acumular criptomoedas parecia uma estratégia vencedora. Empresas dos mais variados setores, de hotéis a apostas esportivas, decidiram migrar para o modelo de tesouraria de cripto. Outras, já constituídas como compradoras privadas de cripto, concordaram em ser absorvidas por SPACs, dando origem a centenas de tesourarias listadas em bolsa.
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