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Cena da montagem de 'Deserto', da Polifônica Cia.- Renato Mangolin / Divulgação
Andre Marcondes
São Paulo
Ao completar 10 anos, a Polifônica Cia. consolida-se como um dos grupos teatrais mais originais e premiados do país, destacando-se por sua capacidade de transfigurar grandes obras da literatura contemporânea em experiências cênicas inovadoras —onde vida e arte se entrelaçam de forma tão radical quanto nos textos de Roberto Bolaño, um de seus interlocutores recentes.
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Fundada em 2015 pelo diretor e dramaturgo Luiz Felipe Reis e pela atriz e performer Julia Lund, a companhia construiu uma história marcada por reconhecimento artístico e crítico, com espetáculos que desafiam a linearidade narrativa, privilegiando a força da palavra em diálogo com dispositivos visuais e performáticos.
O ano de 2025 encontra a Polifônica em plena atividade criativa. Enquanto prepara a estreia de "Deserto" no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 18 de julho, "Eddy— Violência & Metamorfose" segue em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Espetáculo que além de celebrar a primeira década da companhia, representa outro eixo fundamental da pesquisa da Polifônica: como o corpo registra a violência.
Com as atuações de João Côrtes, Julia Lund e Igor Fortunato, a peça baseada na obra de Édouard Louis aprofunda questões presentes em montagens anteriores, como "Amor em Dois Atos", de 2016, e "Tudo que Brilha no Escuro", de 2020. Essa dupla programação revela não apenas a vitalidade do grupo, mas sua vocação para dialogar com vozes literárias distintas. Leia também: Cristovão Tezza vence o prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra
"Deserto" chega a São Paulo já com um histórico de reconhecimento —três indicações ao prêmio APTR e uma ao prêmio Shell, refletindo a maturidade da linguagem da Polifônica. A encenação investiga Bolaño não como uma biografia linear, mas como um mosaico cênico onde escritor e personagem se confundem. Monólogos interrompidos, projeções de texto e movimentos em slow motion compõem uma dramaturgia fragmentada, espelhando a estética do autor chileno.
Sobre a gênese do projeto, Luiz Felipe Reis explica: "O fascínio pela obra de Bolaño começou com 'Os Detetives Selvagens' e se intensificou com '2666'. O projeto original era encenar '2666', mas diante das dificuldades, reimaginei uma dramaturgia mais especulativa sobre seus últimos anos de vida, enquanto ele lidava com uma doença hepática e finalizava sua obra-prima. Me interessava essa tensão entre criação e destruição, Eros e Tânatos, que atravessa nossa trajetória e a dele."
Renato Livera, protagonista da peça, reflete sobre o processo. "Talvez o mais importante para nós nessa montagem fosse levantar a questão do estado de poesia no ser humano. Bolaño estava atravessado por camadas políticas e pessoais brutais. A arte surge como ressignificação da vida —são 'os músculos da poesia', como ele diz, que iluminam o caminho até o limite da matéria humana."
A abordagem do grupo é emblemática de sua filosofia: em vez de adaptar, cria diálogos profundos entre literatura e teatro. Em "Deserto", cenas íntimas justapõem-se a trechos de suas obras, além de palestras fictícias abruptamente interrompidas.
A encenação radicaliza a ambiguidade do autor —ser de carne e tinta— através de dispositivos que questionam a autoria: seja nos closes iluminados que isolam gestos mínimos do ator, seja no uso de câmeras que registram e projetam a ação em tempo real. Quando palavras projetadas num telão contradizem o discurso do ator, ou quando Renato Livera interage com sua própria imagem filmada ao vivo, o espetáculo nos lembra que o "Bolaño" em cena é sempre uma construção. Mais de entretenimento
Essa linguagem visual dialoga intensamente com o cinema, recursos técnicos que ecoam a obsessão bolañiana por dispositivos de registro como testemunhas precárias contra o esquecimento. A cena em que o personagem grava uma mensagem para o filho é paradigmática: o vídeo funciona como cápsula do tempo de um pai que sabe que não verá seu filho crescer.
"A diversidade da linguagem em 'Deserto' vem dessa pluralidade de ferramentas —imagens, sons, luz. É um campo vasto de comunicação, com protestos, cartas, ensaios. Esses universos que atravessavam Bolaño são parte da peça.", diz Livera. E o diretor detalha: "Desde 2015, pesquiso Polifonia Cênica e Contra-cenas ao Antropoceno. Em 'Deserto', articulamos teatro, literatura, vídeo e som para questionar o lugar da arte num mundo neoliberal."
"Para além do trabalho com o corpo, com o texto e com a atuação, portanto, buscamos potencializar a dimensão visual e sonora do evento teatral, algo que marca a experimentação teatral contemporânea, mas que igualmente constitui o teatro clássico, grego, concebido justamente como somatória do "espaço da visão", o theatron, e do "espaço da audição", auditorium. Leia também: Salão do Livro do Piauí celebrou: o detalhe que mais repercutiu
Sobre a colaboração com Livera, Reis destaca, "precisávamos de um ator-performer com energia específica, algo entre Bolaño e os personagens de 'Os Detetives Selvagens'. O Renato trouxe não só atuação, mas contribuições para a dramaturgia. Trabalhamos na fricção entre texto e corpo, sem buscar mimetismo."
O ator acrescenta: "Com Luiz, havia um espaço seguro para vagar no abismo da incerteza. Essa co-criação entre intérprete e diretor foi vital. 'Deserto' tornou-se um projeto que dialoga com minha necessidade artística de refletir sobre a América Latina. Acho que se fosse somente para decorar um texto e interpretar, talvez não me interessasse muito."
"O que resulta [dessa co-criação] é um Bolaño indissociável do performer e da pessoa Renato Livera. O corpo do Renato, sua personalidade, suas memórias, tudo é atravessado pelas palavras do Bolaño e resultam numa terceira coisa, que não é nem só Bolaño e nem só Renato, mas o resultado dessa transfusão", conclui o dramaturgo.
Em meio às duas encenações, a Polifônica já prepara "Banzeiro", adaptação do livro de Eliane Brum prevista para 2026. "Não queremos apenas adaptar textos, mas criar um espaço onde a palavra escrita e a linguagem teatral se encontrem em pé de igualdade", conclui Reis.
Entre prêmios e uma programação que não para de crescer, a Polifônica celebra sua primeira década de existência como um coletivo que prospera no cenário cultural brasileiro. Seja através de Bolaño, Louis ou Brum, o grupo mantém viva uma pergunta essencial: como transformar grandes narrativas em experiências cênicas que falem diretamente ao nosso tempo?
Deserto
- Quando Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h. Sessão gratuita para pessoas a partir de 60 anos, 15/08, às 15h.
- Onde Sesc Santana - av. Luiz Dumont Villares, 579 - Santana, região norte
- Preço A partir de R$ 18 (credencial plena)
- Classificação 16 anos
- Autoria Luiz Felipe Reis
- Elenco Renato Livera
- Direção Luiz Felipe Reis
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Acessibilidade
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Audiodescrição Recurso de acessibilidade que transforma o visual em verbal e amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual -
Intérprete de Libras Há profissional que interpreta o conteúdo sonoro para pessoas com deficiência auditiva
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