A histórica vitória de João Fonseca sobre Novak Djokovic em Roland Garros não foi construída em um único dia, tampouco foi obra do acaso. Ao longo da temporada, Fonseca se preparou para este momento enfrentando os líderes do ranking em grandes palcos do circuito. Só neste ano, ele também jogou contra Jannik Sinner em Indian Wells, Carlos Alcaraz em Miami, Alexander Zverev em Monte Carlo e Ben Shelton em Munique.
E como é de se esperar, para um ótimo jogador em formação, o atual número 1 do Brasil assimilou as lições de cada uma dessas partidas contra adversários mais experientes no alto nível para colocar em prática nesta sexta-feira na quadra Philippe Chatrier, palco tão especial para o tênis brasileiro.
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Há pouco mais de três meses, quando enfrentou Sinner e Alcaraz nos Estados Unidos, Fonseca avaliou que havia apresentado um bom nível de tênis, mas que detalhes fizeram a diferença a favor dos números 1 e 2 do mundo.
“Meu nível está lá, consigo jogar contra eles e fazer grandes partidas. Mas ainda existem pequenos detalhes que preciso trabalhar todos os dias”, disse o carioca, após o jogo com Jannik Sinner. “Essas coisas fazem muita diferença nos pontos importantes. Ainda preciso de experiência, mas senti que o nível esteve bem próximo hoje”. Leia também: MP denuncia ex-estagiário: pediu academia grátis a investigado.
“Claro que quero melhorar muitas coisas para chegar a esse nível de forma consistente, mas fiquei feliz com a maneira como joguei e com o que consegui produzir em quadra”, acrescentou. “Como tenista, quando perdemos ficamos um pouco tristes ou decepcionados, tentando entender o que fizemos certo e errado. Mas estou feliz com a maneira como joguei. Quando você faz tudo bem e o adversário merece o crédito, não faz sentido ficar bravo consigo mesmo”.
Duas semanas depois, ao enfrentar Alcaraz, ele já via sinais de evolução: “Acho que o jogo da semana passada contra o Jannik me ajudou a entrar na quadra sem medo, tentando jogar o meu jogo. Mas acho que não aproveitei as oportunidades que tive e que ele jogou muito bem. Preciso pensar nos meus erros e tentar melhorar”.
Já no início da temporada de saibro, Fonseca fez a melhor campanha em Masters 1000 da carreira ao chegar às quartas de final de Monte Carlo e ser superado por Alexander Zverev. Na ocasião, reconheceu que não fez uma boa partida, especialmente no aspecto mental.
“Era uma partida que queria muito ganhar, estava me cobrando muito. A postura poderia ser melhor, de não mostrar fraqueza ou que estava incomodado com certas coisas”, avaliou, em entrevista à ESPN. O carioca teve falas parecidas após o confronto com Shelton em Munique: “Venho fazendo boas partidas contra esses caras, mas quero estar ainda mais forte. Estou competindo de frente a frente com eles, mas os pequenos detalhes importam. Nos momentos importantes poderia ter ido melhor. Tem sido um incrível aprendizado e espero evoluir para a próxima”.
O tamanho da façanha
Derrotar Novak Djokovic em um Grand Slam é uma tarefa duríssima e os números mostram. Recordista de títulos, com 24 conquistas, o sérvio é especialista nesses duelos de cinco sets e sabe muito bem administrar energia e o ritmo do jogo para chegar mais inteiro no fim. Em jogos definidos no quinto set, o veterano de 39 anos acumula 41 vitórias e sofreu apenas a 12ª derrota. Ainda mais impressionante é o histórico que ele tem quando abre dois sets a zero de vantagem, agora com 279 vitórias e apenas duas derrotas. A última virada sofrida nessas condições havia sido para o austríaco Jurgen Melzer em 2010. Mais de esporte
Lições aprendidas
Ainda assimilando o impacto da vitória desta sexta-feira, Fonseca admitiu que nem sempre acreditou que seria possível buscar a virada, mas que mudou a percepção a partir do terceiro set, quando via o rival mais desgastado. “Em alguns momentos, nem eu acreditava. Ele estava me destruindo. Então tentei focar apenas no ponto a ponto, sem pensar que ainda precisava ganhar mais três sets”.
E se em muitos momentos da temporada, vimos questionamentos sobre a preparação física do João ou da capacidade de se adaptar às mudanças do jogo, a partida com o sérvio apresentou respostas positivas. Djokovic começou a partida utilizando bolas altas e sem peso, que tiravam o ritmo, especialmente nas devoluções. E assim, conseguiu duas quebras, chegando a liderar o placar por 5/1. Leia também: FMS 8: Bambam x Davi Brito e Popó x Whindersson
Mesmo sem reverter o placar do set, Fonseca reduziu a diferença no placar a partir do momento em que pôde variar um pouco mais os saques e dificultar mais as devoluções do sérvio. Foi o momento também que ele se solta mais nos ralis de fundo e já definia mais pontos com o forehand. Mesmo com o desgaste, ele conseguiu a dinâmica do jogo e encontrar respostas para as tentativas do sérvio de trazê-lo para a rede e fazer correr. “Achei que ele poderia estar mais cansado, o que me deu esperança. Quando venci o terceiro set comecei a acreditar mais. E no quinto set foi puro coração”.
Fonseca também saiu em defesa de sua equipe de trabalho, com o técnico Guilherme Teixeira e o argentino Franco Davin. “Existe uma pressão muito grande sobre eles e até um certo preconceito com treinadores brasileiros. Me falam: ‘Tem que ir para a Europa’. Mas eu acredito muito na minha equipe. Eles agregam demais no dia a dia e treinamos o máximo possível”. E como também havia dito quando bateu o croata Dino Prizmic na segunda rodada: “Esses jogos têm muita história por trás, com todo o trabalho que o meu time faz e ninguém sabe”.
Experiência nos grandes palcos
Desde que começou a se destacar no circuito e atrair atrações de todo o mundo, Fonseca tem sido frequentemente escalado para os grandes palcos, o que também o preparou para o ambiente desta sexta-feira. Antes do duelo com Djokovic, o carioca já comentava sobre o quanto gosta desse tipo de jogo: “Sempre quis jogar contra o Djokovic, foi uma coisa que eu sempre sonhei. Gosto de jogos grandes, em que a vibe é diferente. Ele é um ídolo e o maior da história”, afirmou.
Já com a vitória consolidada, não escondeu a emoção: “Foi simplesmente uma honra a quadra com ele. Ontem foi difícil dormir, com muitos pensamentos na cabeça. O meu sonho era jogar contra o Djokovic e talvez ganhar dele. Claro que também sonho em ganhar um Grand Slam e ser número 1 do mundo, mas uma coisa de cada vez”.
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