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Do campo para a luta: lenda do rúgbi derruba o tabu do HIV no esporte

Em meio a este estereótipo de masculinidade que o rúgbi desenha, Gareth Thomas — capitão e líder da seleção do País de Gales, que tem tradição no esporte — demonstrou

Do campo para a luta: lenda do rúgbi derruba o tabu do HIV no esporte
Gareth Thomas em clínica de  rúgbi em Ipanema
Gareth Thomas em clínica de rúgbi em Ipanema

Corpos musculosos, pancadas entre adversários e, vez ou outra, até fraturas. Em meio a este estereótipo de masculinidade que o rúgbi desenha, Gareth Thomas— capitão e líder da seleção do País de Gales, que tem tradição no esporte— demonstrou força de outra maneira: se tornou o primeiro jogador profissional da modalidade a se declarar homossexual ainda em atividade.

Passada uma década, em 2019, compartilhou publicamente o diagnóstico de HIV e passou a ser voz ativa da causa, criando a "Tackle HIV".

Leia no AINotícia: Goleiro Santos do Athletico-PR é desfalque no Brasileirão após terceiro amarelo

A Tackle HIV é uma campanha junto com o VIV Healthcare que foi criada depois do meu diagnóstico. A medicina e a ciência estão avançadas, mas a sociedade e seus pensamentos sobre HIV não avançaram tão rápido quanto. Queria usar os meus sucessos do passado, no esporte, para ter voz e chamar a atenção Gareth Thomas, ao UOL

[A intenção é] Poder dar informação correta sobre o HIV e a compreensão de que eu, como alguém que vive com HIV, tomo o medicamento diário e posso viver uma vida normal, feliz, saudável. HIV não me restringe de fazer qualquer coisa Gareth Thomas

Ele já admitiu, em oportunidades anteriores, pensamentos suicidas após o teste positivo. Hoje, com um olhar diferente sobre a vida, Gareth esteve no Rio de Janeiro e apresentou um painel na 26ª Conferência Internacional de AIDS— o Brasil possui hoje a maior prevalência de HIV da América Latina, segundo dados da "Aids Info". Leia também: Copa do Brasil sem Flamengo e São Paulo. Informações e palpites do PVC

Lenda do rubgy, aproveitou a passagem pelo país e fechou parcerias com o Instituto Cultural Barong, com a Confederação Brasileira de Rugby, com o Rio Rugby e com a organização juvenil Grassroot Soccer.

"É a minha primeira vez no Brasil e, tenho de admitir, achei tudo lindo (risos). Eu me senti em um país onde há uma celebração da diferença, uma normalização. A aceitação da diferença é celebrar a sua diferença. Tratar alguém da mesma forma que você trataria qualquer outro é um dos nossos pontos de luta", disse

No Brasil, como em todos os países, não importa o quão aceitável você se sinta, há elementos e há problemas sobre o estigma, a discriminação Talvez não por motivos discriminatórios, mas, apenas por falta de conhecimento e compreensão. Conversei, nos últimos dias, com pessoas que conhecem pessoas que são HIV positivas e têm medo da reação ao dizer a outras pessoas. Todos chegam a este único lugar com o mesmo problema e espero que tenham saído com respostas diferentes Gareth Thomas

Segundo pesquisa realizada pela "Tackle HIV", 36% dos brasileiros entrevistados ainda acham que homens heterossexuais não correm risco de contrair o HIV, e 37% acreditam no mesmo em relação a mulheres heterossexuais. Além disso, indicou uma falta de hábito de testagem: apenas 48% dos entrevistados já fizeram um teste e entre os 40% que cogitariam fazer, a maioria dos que rejeita a ideia justifica dizendo que "não se consideram em risco".

Gareth Thomas defendeu a seleção de Gales em 100 partidas e chegou a deter a marca de maior marcador de tries, além de ter capitaneado os British & Irish Lions— equipe que representa as Ilhas Britânicas. Ele comandou uma clínica de rúgbi na praia de Ipanema, na última quarta-feira, com jovens de comunidades vulneráveis. Mais de esporte

Gareth Thomas foi um dos líderes da seleção de rugby do País de Gales
Gareth Thomas foi um dos líderes da seleção de rugby do País de Gales

O tabu no esporte

Mas por que, ainda em 2026, são poucos os exemplos de atletas de modalidades masculinas, principalmente em esportes coletivos, que são abertamente homossexuais? Carl Nassib, que era da NFL e anunciou ainda como atleta, e os jogadores de futebol inglês Jake Daniels e argentino Ignacio Lago integram uma lista ainda muito tímida.

É um trabalho em progresso para aceitar os homossexuais. Em 2026, com a compreensão de quão influentes os atletas podem ser, ainda é muito difícil nomear atletas profissionais em todos os esportes [que tenham falado abertamente]. Acho que para entender a diversidade, é preciso perceber que se você não pode nomear uns cinco de milhões de atletas em todo o mundo, então, temos que perceber que o esporte tem um problema Gareth Thomas

Ao avaliar o ambiente esportivo atual, Gareth ressaltou que não citar ex-atletas, como ele próprio ou o saltador britânico Tom Daley, que assumiu publicamente sua homossexualidade em dezembro de 2013, não valida qualquer tese. "Não é ok dizer que o esporte é um lugar bom porque, lembre-se, há 10 anos havia aquele jogador de rúgbi ou, lembre-se, há oito anos havia aquele nadador. Entender a igualdade é entender a equidade, e não há um equilíbrio de comunidades representadas em times esportivos", apontou. Leia também: Jogo Lovecraft volta ao centro do debate na temporada

Gareth alerta que a homofobia e o crime de ódio está em crescimento no mundo e que as entidades que administram as modalidades esportivas devem criar um ambiente mais seguro aos atletas que queiram se assumir.

Sou ex-atleta profissional e, primeiramente, acho que é importante entender que a sexualidade de alguém não define sua habilidade. E se você trabalha tão duro para chegar a um certo ponto, realizar que você pode passar o resto da sua vida celebrada porque você alcançou o que queria e ser discriminado por algo que não tem relevância para a sua habilidade, então você percebe o potencial do porquê as pessoas não vão ser honestas. Não há um ambiente onde há tolerância. No momento, vivemos em um mundo em que a homofobia é e o crime de ódio está em crescimento, e ainda não há muitos atletas abertamente homossexuais Gareth Thomas

"Se, por exemplo, no mundo do futebol ou do rúgbi, as pessoas estão sofrendo preconceitos homofóbicos agora, e ainda não há jogadores abertamente homossexuais, então isso não cria um ambiente positivo para alguém que deseja se declarar. Eles percebem que se eles forem fazer isso, serão definidos por algo que é irrelevante à habilidade. Um monte de trabalho precisa ser feito por entidades, por associações que fazem a gestão do jogo, para criar ambientes em que as pessoas se sintam como se fossem suas próprias almas autênticas e não sejam discriminadas contra isso", completou.

O que mais ele falou?

"A realidade da sociedade, com qualquer minoria, é que vai haver pessoas que vão te apoiar. Te apoiam por causa da sua autenticidade, mas sempre vai haver um número de pessoas que vão usar a vulnerabilidade para, de alguma forma, te quebrar, tentar te afetar. Minha vida não era diferente de todos os outros, mas o que, infelizmente, nós temos é que nós construímos dentro dos nossos corpos: a capacidade de ouvir mais fortemente os comentários negativos que os positivos. Então é uma coisa difícil de ter que superar, mas é uma coisa que eu superei com orgulho, e agora falo com orgulho."

"Vivemos em um mundo em que há 64 países onde é ilegal ser homossexual, e eu não vivo em um deles. Então, estamos falando de esportes em geral, mas também entendemos que em diferentes países, diferentes religiões, diferentes casas, há muitas barreiras que podem, potencialmente, entrar no caminho de permitir que alguém seja autêntico. Há muitas coisas neste mundo que ainda estão contra as relações homossexuais, que são contra duas pessoas que, por qualquer identidade, amam um ao outro. Ainda há muitas coisas por aí que são barreiras para permitir que isso aconteça".

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