Socorro Acioli e Valter Hugo Mãe voltam ao topo dos mais vendidos da Flip
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Matheus Rocha
Paraty (RJ)
Afinal, o que é ser uma escritora? Essa pergunta norteou o encontro entre as autoras Djaimilia Pereira de Almeida e Bianca Santana neste domingo (26), na Casa Folha, espaço do jornal na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.
"Eu escrevo porque escrever me dá um gozo extraordinário. Ser escritora, para mim, é escrever de uma forma que nunca restrinja esse gozo, que é um gozo que vem da liberdade", disse Almeida, em conversa mediada por Flavia Lima, repórter especial da Folha.
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Autora de livros como "Esse Cabelo", "Luanda, Lisboa, Paraíso" e "O Livro do Meu Pai", a escritora já venceu duas vezes o prêmio Oceanos, uma das láureas mais importantes entre os países de língua portuguesa.
Para ela, escrever é uma forma de reafirmar a sua autonomia e independência. "É ter a liberdade de fazer uma coisa que é um direito particularmente vedado a gerações e gerações por séculos e séculos, que é a liberdade do uso da imaginação. É não deixar que ninguém aprisione a minha imaginação."
Em seus livros, Almeida gosta de incorporar uma certa ambiguidade para que seus personagens não caiam no maniqueísmo. Essa predileção pela dubiedade se relaciona à própria história de vida da escritora. Leia também: Socorro Acioli e Valter Hugo Mãe voltam ao topo dos mais vendidos da Flip
"Estou atenta a essas nuances porque tive de aprender a sobreviver num terreno nada estável e muito hostil, em que o racismo, no meu caso, era vivido não só na rua, mas também no contexto doméstico", afirmou Almeida. "Sem ambiguidade, sem nuance, não existe vida."
Se para ela a escrita é um exercício de liberdade, para Santana a literatura também é uma forma de doação. "Uma escritora, de acordo comigo mesma, é se colocar à disposição das palavras e das histórias. Entregar o próprio corpo, o próprio tempo", disse a jornalista, que é colunista da Folha. "É abrir mão muitas vezes do convívio e de outros interesses para estar à disposição para que as histórias sejam contadas."
Doutora em ciência da informação e mestra em educação, Santana é autora de "Quando me Descobri Negra", "Continuo Preta: A Vida de Sueli Carneiro" e "Apolinária", livro que marcou a sua estreia na ficção, em 2025. Na obra, Santana apresenta ao leitor a trajetória de sua avó, cujo nome batiza o título da obra, e de quem ela diz ter herdado uma certa braveza.
"Essa braveza dela era uma proteção muito importante para ter liberdade e, ao mesmo tempo, permitia que pudesse ser generosa e conviver, mas num lugar mais protegido e sem ser abusada", disse a escritora. Mais de entretenimento
Ao contar a história de sua avó, Santana levou ao leitor uma realidade social comum a muitas mulheres negras migrantes. De certa forma, é como se o livro fosse um espelho de parte expressiva da sociedade e da própria história do Brasil.
Esse interesse em entrelaçar narrativas coletivas e particulares surgiu quando ela leu "Anarquistas, Graças a Deus", de Zélia Gattai. A escritora diz ter se encantado com o modo como Gattai entrelaçou narrativas familiares aos acontecimentos históricos do país.
"E aí isso virou uma brincadeira que eu sempre amei fazer, de tentar localizar no tempo histórico e na história coletiva os acontecimentos, sejam eles quais fossem." Leia também: Entretenimento: O que rolou na TV, cinema e música nesta semana
Durante a mesa, a autora afirmou que, por vezes, usa como base de textos não ficcionais as histórias familiares vividas ou testemunhadas por sua mãe. "Quando eu mando os textos, ela é muito crítica e sempre diz que não foi exatamente assim e dá a perspectiva dela. E a gente está muito pacificada com isso, porque é a versão dela, é a minha versão, então está tudo bem."
No entanto, quando Santana enviou as páginas de seu primeiro livro de ficção, a resposta de sua mãe a deixou surpresa. Ela considerou que todos os causos de "Apolinária" eram verdadeiros, mesmo quando a escritora dizia que era tudo invenção.
"Então, para minha mãe, a minha primeira ficção é a maior verdade que eu já escrevi", afirma a jornalista. "Talvez tenham mesmo verdades mais profundas em lugares em que a gente vai sem muita consciência."
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