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De volta ao Brasil , Anitta testa novos caminhos em Equilibrium

17.abr.2026 à 0h20 Diminuir fonte Aumentar fonte Ouvir o texto Amanda Cavalcanti Equilibrium Quando Desde 16 de abril Onde Nas plataformas digitais Autoria Anitta Anitta

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Equilibrium

Anitta não mentiu quando disse que havia diferentes versões dela. Numa época em que é exigido das estrelas pop que tenham "eras", fases com estéticas e motivos líricos distintos para cada álbum, ela responde a esta expectativa com maestria: foi de MC de funk da Furacão 2000 à maior cantora pop brasileira; depois, partiu em busca do estrelato enquanto artista de reggaeton e, finalmente, com "Funk Generation", fez uma obra que mostra seu amado funk a uma audiência internacional.

Com tantas viradas, não era improvável que a cantora surpreendesse seu público novamente em "Equilibrium", que chegou às plataformas digitais nesta quinta (17). Mas Anitta fez mais do que isso, e protagoniza a mudança mais radical de sua carreira em seu oitavo álbum. É um lançamento que não apenas mostra a artista em sua fase mais pessoal, mas também conecta passado, presente e futuro da música brasileira.

Mulher está em pé diante de uma parede alta feita de palha escura, vestindo saia longa vermelha com detalhes brancos e saia curta de penas claras sobreposta. Ela usa colar grande e acessórios no braço, com expressão neutra e cabelo solto.
A cantora Anitta em imagem de divulgação do álbum 'Equilibrium' - Caia/Divulgação

O tom de familiaridade e o foco em seu berço não vieram do nada. Após anos vivendo no exterior, a cantora voltou a morar no Rio de Janeiro no ano passado. O novo lar serviu também de estúdio para a maior parte do álbum, onde Anitta recebeu os tantos colaboradores que aparecem em "Equilibrium": de Marina Sena a Ponto de Equilíbrio, passando por Luedji Luna, Ebony e Os Garotin. Na produção, aparecem nomes como Papatinho, Iuri Rio Branco e Carlos do Complexo.

Tanta gente poderia soar como uma distração para a música da cantora, mas o efeito é, na verdade, o contrário: no papel de artista-curadora, Anitta pegou emprestado o melhor de cada performer para construir o que é, essencialmente, sua versão de um álbum de nova MPB. O trio de duetos seguidos "Mandinga", com Marina Sena, "Caminhador", com Liniker, e "Bemba", com Luedji Luna, são os melhores frutos dessas colaborações. Leia também: Meloni não era Mussolini , mas também não é Thatcher

Tão presente quanto a brasilidade é a entrada da religião e espiritualidade nos temas da cantora, que é praticante de candomblé desde 2022. "Equilibrium" não é um álbum essencialmente religioso, mas mostra uma Anitta mais espiritual e introspectiva. Apesar da ocasional faixa dançante e debochada, característica de seu catálogo, grande parte da tracklist parece engatar num ritmo mais lento e se aprofundar em seus sentimentos internos e reflexões pessoais.

Apesar da profundidade nos temas, o álbum por vezes sofre no descompasso entre forma e conteúdo. Há boas ideias e composições, como "Ternura", com a cantora baiana Melly, que acabam pecando pela produção excessivamente limpa e plastificada, inclusive na voz da cantora. É uma escolha que faria sentido num álbum de pop lustroso, como seus anteriores, mas com as canções mais soltas e instrumentação acústica desse novo lançamento, Anitta acaba soando engessada.

Nos momentos em que se solta, porém, a cantora brilha. A introdução de "Desgraça", que abre o álbum, é construída com um violão e sua voz em baixa fidelidade –algo que poderia ter sido tocado por Kiko Dinucci e cantado por Juçara Marçal no projeto Metá Metá, projeto de MPB também influenciado por religiões de matriz africana.

Em suas 15 faixas, o álbum faz um malabarismo de ideias e referências. Diferente de "Funk Generation", não há um ponto focal estético: "Deus Existe" é um reggae em parceria com o celebrado grupo carioca Ponto de Equilíbrio; algumas faixas à frente, a cantora apresenta uma versão em espanhol do clássico do Olodum "Várias Queixas", que recentemente ganhou uma versão de sucesso pelo grupo Gilsons. Mais de noticia

"Várias Quejas" foi uma das faixas escolhidas pela cantora para se apresentar no celebrado programa Saturday Night Live na semana passada, onde também cantou seu dueto com Shakira, "Choka Choka". As faixas, junto com "So Much Love" e o primeiro single do disco, "Pinterest", são as únicas em espanhol no novo álbum. Do inglês, só rastros. Pela primeira vez em anos, Anitta se dedica ao português.

No atual momento do pop, pode ser um movimento inteligente. Seguindo os passos de astros como Bad Bunny e Ca7riel e Paco Amoroso, artistas que tiveram o hype lá no alto e turnês celebradas no mundo todo apesar de cantarem em seu nativo espanhol, é possível que a cantora aproveite seu bom momento pessoal, como figura já reconhecida internacionalmente, e o aquecimento do mercado para sons não-anglófonos para puxar a música brasileira ao centro de sua trajetória novamente. Leia também: Nem toda área livre é permeável . E isso muda a cidade

O álbum chega ao final com a sequência de peso "Vai dar Caô", com Ebony e Papatinho, e "Meia-Noite", com Los Brasileros, que evocam o funk e a música eletrônica que têm guiado o trabalho da cantora nos últimos anos. No encerramento, outra virada brusca com a faixa "Ouro", um mantra meditativo.

O orçamento milionário de uma estrela pop, em geral, coloca a espontaneidade de uma obra em cheque. Mas vale dizer que "Equilibrium" parece um álbum menos focado em dominar o jogo do pop, e mais em fazer uma declaração artística e pessoal da maior estrela da música popular brasileira da última década. Com boas ideias, Anitta se atrapalha um pouco na execução, mas ainda faz um trabalho notável.

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