Diversidade de conteúdos on-line revela como etnias expõem suas identidades e demandas sociais.
Em 1981, Baby do Brasil gravou um samba-rock em forma de advertência que, décadas depois, o Brasil ainda caminha a passos lentos para processar. Em Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar, a cantora protesta contra o “homem branco” que limita o dia do indígena a apenas uma data. É que antes de sua chegada, todo dia era dia de índio.
Quarenta e cinco anos depois do lançamento da música, o dia dos Povos Indígenas, celebrado no último domingo (19/04), não é mais a única data na qual os olhos do país se viram para suas populações originárias. Nas redes sociais, turbinadas por influencers indígenas, todo dia pode ser dia de índio. Ysani Kalapalo e We’e’ena Tikuna, duas mulheres indígenas, de povos e posicionamentos distintos, são expoentes desse debate.
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As redes sociais como ferramenta de luta
Nas redes desde 2008, Ysani Kalapalo define-se como uma indígena do século XXI. Nascida no Alto Xingu, em Mato Grosso, ela conversou com o G1 após participar do Fórum da Liberdade, realizado nos dias 9 e 10 de abril, em Porto Alegre.
No palco, entre debates políticos e econômicos do fórum, falou sobre o jeitinho brasileiro e lembrou da resiliência dos Kalapalos: Leia também: Navio japonês de 65 metros e 500 toneladas, usado contra pesca ilegal, atraca em Ilhabela e abre visitação
"Uma coisa de que eu gosto muito no meu povo é a alegria. É algo que eu admiro muito, é exatamente não perder a esperança".
Ysani, que começou seu trabalho como influenciadora no antigo Orkut, hoje soma mais de 2 milhões de seguidores entre YouTube, Instagram e TikTok.
"Quando eu criei meu perfil, recebi muitos ataques. 'Como assim índio na internet? Lugar de índio é no mato'. Daí eu criei a campanha 'Orgulho Indígena' justamente para combater esse preconceito. De lá para cá, mudou muita coisa. Hoje somos mais aceitos como seres humanos", relembra.
O ambiente digital, que já foi usado para mostrar a dança e a cultura de seu povo, tornou-se espaço de debate político sobre indígenas. Em setembro de 2019, Ysani foi convidada pelo então presidente Jair Bolsonaro para integrar a comitiva brasileira na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
A decisão provocou uma nota de repúdio à escolha da influenciadora pelo governo Bolsonaro e foi assinada por representantes de 16 povos do Xingu. No Fórum da Liberdade, Ysani defendeu que a escuta não se limite às lideranças. Mais de noticia
"Ouça o indígena. Vá para as aldeias, converse com a comunidade, não apenas com uma liderança", afirmou.
Ysani Kalapalo durante palestra no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre. — Foto: Daniella Dias
Foi no mesmo Orkut que We’e’ena Tikuna chegou à internet. A indígena amazonense hoje se divide entre a aldeia manauara, o Rio e São Paulo. Sua vasta biografia explica o motivo: influenciadora, estilista, ativista, cantora e formada em Artes Plásticas pelo Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia, além de Gestão Financeira e Nutrição. Leia também: Não é só Medicina: cursos mais caros de Administração têm mensalidades de até R$ 13.500; veja números
"Eu acreditava que para as pessoas me escutarem, eu tinha que ter uma formação acadêmica, porque elas olham para o indígena e veem como algo do passado, e não do presente, né?", conta.
Com quase 5 milhões de seguidores nas redes, We’e’ena divulga saberes ancestrais, rituais, rotina e pinturas corporais. O espaço tornou-se vitrine de cultura e combate.
"Hoje as redes são uma ferramenta de luta dos povos indígenas. Antigamente a gente era morto sem ninguém ver. Hoje as nossas terras são demarcadas porque a gente grava que estão matando parentes ali", acredita a influenciadora.
We’e’ena Tikuna soma quase 5 milhões de seguidores na internet. — Foto: Alessandro Kawan
We’e’ena relembra que as redes foram o campo de batalha para o lançamento de uma campanha em defesa do Rio Tapajós, em Alter do Chão, contra uma empresa que pretendia explorar o território.
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