Uma vida cronificada: o enigma persistente no tratamento da fibromialgia Sem marcador biológico definido, os tratamentos psíquicos seguem marginalizados frente às abordagens biomédicas Guilherme Henderson atualizado No Brasil, o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Fibromialgia é celebrado em 12 de maio (Lei nº 14.233/2021).
Em 2025, o quadro foi reconhecido como deficiência para todos os efeitos legais (Lei nº 15.176/2025), o que reflete tanto o peso epidemiológico do problema quanto a dificuldade persistente em tratá-lo. Supervisiono, há cerca de oito anos, o estágio em psicologia clínica de orientação psicanalítica no Centro de Atendimento Comunitário do CEUB, em Brasília. Desde que o serviço passou a receber encaminhamentos diretos das especialidades médicas, observa-se um número crescente de pacientes, em sua grande maioria mulheres, chegando com diagnóstico de fibromialgia.
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Não chegam, em geral, como quem busca um analista por um impasse localizável na própria vida. Chegam como quem se apresenta a mais uma especialidade. Já passaram pelo clínico geral, pelo reumatologista, pelo neurologista, pelo fisioterapeuta, pelo educador físico.
Agora passam pelo psicólogo, que entra como mais uma estação dessa verdadeira carreira médico-terapêutica, sem que se saiba muito bem o que esperar de diferente. A semana dessas mulheres muitas vezes se organiza em torno dessas estações. Segunda do doutor
X, terça do doutor Y, quarta do exame, quinta da entrega do exame para o doutor Z, sexta do encontro com o estagiário de psicologia, a quem muitas chamam, cerimoniosamente, de “doutor”, ainda que ele tenha pouco mais de vinte anos. Uma vida que vai se orbitando em torno da doença. Diagnosticada por critérios clínicos baseados no relato do paciente, sem marcador laboratorial, sem alteração de imagem, sem lesão tecidual demonstrável, a fibromialgia ocupa um lugar singular na nosografia atual: o de uma dor real cuja causa permanece incerta e cuja cura, segundo as próprias diretrizes oficiais, não existe. Leia também: spurs
O Colégio Americano de Reumatologia revisou seus critérios diagnósticos quatro vezes desde 1990. A Sociedade Brasileira de Reumatologia recorre, em seu material de divulgação, à metáfora de um “botão de volume” da dor desregulado no sistema nervoso central. A hipótese explicativa hegemônica para essas dores é a da “sensibilização central”, segundo a qual o sistema nervoso processa estímulos dolorosos de modo amplificado.
Estudos de neuroimagem confirmam que o paciente experimenta efetivamente a dor que descreve. Esse achado dissolveu, ao menos em parte, o estigma histórico da queixa como invenção de uma histérica. O preço, contudo, foi a sua redução a um defeito de processamento.
O cérebro substitui o corpo como sede do enigma, e o sintoma é convertido em ruído neural. O tratamento é, segundo a literatura, “essencialmente sintomático e multidisciplinar”, combinando exercício aeróbico, antidepressivos tricíclicos, duloxetina, pregabalina e o que se denomina, com elegante imprecisão, “suporte psicológico”. É justamente nesse último item que a leitura psicanalítica se mostra um ponto fora da curva.
As principais sociedades médicas conferem à Terapia Cognitivo-Comportamental o nível máximo de evidência para o tratamento da fibromialgia. Uma revisão recente demonstra que a TCC produz efeitos pequenos a moderados, mas robustos e duradouros, sobre intensidade da dor, funcionamento, sono, depressão e catastrofismo. A Terapia de Aceitação e Compromisso e o Mindfulness-Based Stress Reduction figuram em segundo plano, com resultados similares.
A pergunta que a leitura psicanalítica levanta não é sobre a eficácia dessas intervenções, mas sobre o que elas não alcançam, e por quê. Ao incentivar protocolos, ao aconselhar atividade física, ao ajudar a nomear certas emoções, o terapeuta pode estar oferecendo algo genuinamente útil. Mas há um risco adjacente que o discurso científico não tematiza, e que a literatura psicanalítica brasileira já vem assinalando há alguns anos: ao fortalecer a relação do sujeito com ferramentas de manejo da dor, pode-se igualmente fortalecer, sem querer, o discurso operatório que a paciente já trazia da sua carreira médica. Mais de entretenimento
Esse discurso operatório tem um nome técnico. Pierre Marty descreveu, em pacientes com queixas somáticas, um modo de funcionamento psíquico que chamou de pensamento operatório: pragmático, concreto, voltado para a realidade externa, marcado pelo empobrecimento da vida fantasiosa. Esse paciente não evoca, não associa, não lembra com afeto.
Conta o que fez, não o que sentiu. Peter Sifneos nomeou o correlato desse funcionamento de alexitimia, literalmente “sem palavras para as emoções”: não uma ausência de emoções, mas a dificuldade de identificá-las e expressá-las pela via da palavra. Uma metanálise de 2023 identificou alexitimia em quarenta e oito por cento dos casos de fibromialgia, associada à intensidade da dor, à ansiedade e à depressão.
Nessa mesma via, sabe-se que cerca de cinquenta por cento dos pacientes com fibromialgia apresentam quadros depressivos. Uma revisão sistemática de 2018, reunindo 51 estudos sobre fatores precipitantes do quadro, encontrou taxas elevadas de eventos traumáticos prévios, incluindo abuso físico e sexual e negligência na infância. A escuta clínica ratifica esses dados: muitas dessas mulheres trazem histórias entre as mais cruéis, abusos sexuais sustentados por anos, violências domésticas reiteradas, perdas precoces, que muitas vezes não comparecem na narrativa relatada com o analista como dor. Leia também: 15
Comparecem com uma certa rigidez, com a ausência de sentimento aparente, com uma indiferença que costuma ser descrita, em casa e no consultório, como característica da personalidade: a de “ser forte”. O paradoxo é que uma abordagem terapêutica organizada em torno da nomeação técnica de emoções, que ensina a identificar tristeza, a reconhecer um pensamento como catastrofismo, a observar a dor sem reatividade, pode estar operando, sem o perceber, na mesma camada superficial em que a alexitimia se instala. Esse pode até ser um passo importante: a valorização de um campo subjetivo.
Mas reconhecer cognitivamente que se está triste não é o mesmo que se deparar com essa tristeza escrita em nome e corpo próprios. A psicanálise nasce, em 1893, dessa distinção. Anna O., paciente de Breuer, batizou seu próprio tratamento de talking cure, uma cura pela própria fala.
Não se tratava de falar apenas. Tratava-se de reviver, com afeto, a cena que havia sido recoberta pelo sintoma. Como Breuer e Freud formulam logo de entrada, o processo psíquico que ocorreu originalmente deve ser “repetido da maneira mais viva possível, levado ao status nascendi e então expresso com afeto”.
Nomear não pode se reduzir a emprestar palavras como “estou triste”, “estou angustiada”, “estou cansada”. Trata-se de encontrar, na escuta e na interpretação, a palavra, a cena, o fragmento de história que o próprio paciente diz sem perceber, de forma cifrada no sintoma, no sonho, no ato falho, e carregado de um afeto que nem se esperava encontrar até a intervenção do analista. O subversivo da posição freudiana, hoje como em 1893, está em afirmar que certas dores portam um sentido que pode ser decifrado na clínica psicanalítica.
Convém recuperar as observações que Freud apresenta no início de sua obra, todas clinicamente operacionais e ainda hoje produtivas diante do que se diagnostica como fibromialgia. A primeira observação é semântica. O paciente que sofre de uma dor organicamente fundada a descreve com precisão: ela é lancinante, sobrevém a intervalos definidos, irradia-se por trajetos identificáveis.

