Creatina traz benefício na menopausa? Entenda o que diz a ciência A creatina pode ser uma aliada na saúde muscular de mulheres na menopausa, mas sua ação é muito discreta e complementar ao exercício físico
Quando o assunto é menopausa, é comum pensarmos em sintomas como ondas de calor e alterações de humor. Mas, neste momento, em que ocorre um grande dominó hormonal, há outras estruturas do corpo afetadas que causam sinais bem menos falados: os músculos. “A menopausa está associada à queda de estrogênio, que favorece perda de massa muscular, redução de força e maior risco de sarcopenia [perda acelerada de massa com o envelhecimento] e fragilidade”, explica Rita de Cássia de Maio Dardis, membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
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Contra esses efeitos, estudos como uma pesquisa publicada em 2021, na revista Nutrients, indicam que mulheres nessa fase apresentariam benefícios no tamanho e na função da musculatura esquelética ao consumir creatina, suplemento famoso nas academias de musculação. Esse composto poderia ser, então, um aliado das mulheres na pós-menopausa? O que realmente a cretina pode fazer por esse público?
Confira a seguir. Creatina e menopausa combinam? “
A literatura sugere que há benefício potencial [do consumo de creatina entre mulheres na pós-menopausa], especialmente para a musculatura, porém o efeito não é ‘milagroso’ nem universal”, destaca Rita. Para entender isso, vale primeiro nos aprofundarmos no que é esse composto. A creatina é produzida naturalmente pelo próprio organismo e também pode ser obtida pela alimentação, especialmente pelo consumo de carnes e peixes — ou suplementos. Leia também: Mamão maduro pode potencializar benefícios ao intestino
No corpo, ela funciona como uma reserva de energia. Durante movimentos de alta intensidade e curta duração (como quando você dá um gás numa série de levantamento de peso, seguida por uma pausa até a próxima execução), o organismo aciona a creatina para regenerar o ATP (adenosina trifosfato), que é a principal fonte de energia das células. Graças a isso, você ganha mais energia e, assim, pode angariar umas execuções a mais, por exemplo.
Vale a ressalva, porém, de que, em termos de desempenho físico, o efeito da creatina costuma ser modesto — uma melhora de 3 a 5% no momento do esforço. Para atletas de elite, que passam por competições acirradas, isso pode ser a diferença entre o pódio e a derrota. Mas, para o restante da população, um ganho de performance tão pequeno não é lá muito relevante.
Ou seja, até dá para usar pensando nisso, mas na verdade o estilo de vida e os hábitos têm um impacto muito maior sobre o desempenho. “A creatina pode atuar como estratégia adjuvante ao exercício, ajudando na produção rápida de energia muscular e potencializando a resposta ao treinamento”, destaca Rita. Benefícios limitados De todo modo, as evidências científicas que existem hoje consideram a creatina como uma parceira segura para mulheres na pós-menopausa.
Mas isso sob uma condição: combiná-la com treinamento de força pensando em desempenho e preservação de massa magra. Há também estudos que investigam os seus potenciais efeitos sobre a saúde óssea, como aumento da densidade mineral, mas há poucos dados sobre o assunto. Muitos trabalhos tentaram encontrar evidências dessa vantagem, mas não conseguiram.
Outras publicações, principalmente nas redes sociais, dizem que o suplemento poderia melhorar a função cognitiva e até o humor, o que ajudaria muito nessa fase da vida. Só que também não existem provas robustas disso. “Há necessidade de pesquisas com um número mais expressivo de pacientes e com o uso de creatina a longo prazo para a obtenção de resultados mais consistentes”, diz Andrea. Mais de saude
Por fim, mesmo em relação à massa muscular, é preciso reforçar que nenhum dos benefícios seria possível com o suplemento sozinho. “ Portanto, o que você está colhendo, em última análise, é o benefício do próprio exercício e não da creatina“, explica o nutricionista e fisiologista Hamilton Roschel, diretor científico/executivo do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da creatina há décadas.
“Isoladamente, a creatina apresenta pouco efeito sobre a densidade óssea, a massa e a força musculares [nos estudos]”, completa Andrea Fioretti, Coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). “Sendo assim, não adianta tomar a creatina sem um aporte adequado de carboidratos e proteínas e sem exercício físico”, diz a médica.
Outras ressalvas e vereditos É importante dizer que nenhum desses benefícios é bem novidade, tampouco algo específico para o público feminino. “ Nada mais é do que uma reciclagem do conhecimento que já se tem sobre a creatina“, alerta Roschel. Leia também: Doença renal vai muito além dos rins: pode afetar coração e cérebro
É que o que foi visto de positivo dentro dos estudos relacionados às mulheres na menopausa foram os mesmos benefícios avaliados em estudos com idosos e atletas em geral. Portanto, é preciso ter cuidado com estratégias de marketing que podem visar o público com discursos irreais. “Não tem absolutamente nada de especial em relação aos efeitos da creatina na pós-menopausa que não tem em qualquer outra situação que a gente já soubesse”, diz o especialista.
Além disso, a creatina é considera muito segura, mas, ainda assim, como qualquer produto, existem ressalvas. Por exemplo, embora seja segura para os rins, ainda faltam estudos que demonstrem quais são os seus efeitos entre pessoas que têm problemas renais pré-existentes (o que é comum em pessoas mais velhas). É por isso que uma indicação de consumo deve sempre considerar o seu custo-benefício.
“ Isso tudo precisa ser muito bem avaliado, porque a recomendação precisa fazer sentido. Por exemplo: é um indivíduo que treina e quer potencializar o seu exercício?
Ele pode tirar algum benefício disso. Mas, de novo, o benefício está no exercício e não no suplemento em si”, reitera Roschel. Por fim, segundo Rita, a mensagem mais importante é a de que a creatina pode ser uma ferramenta complementar dentro de uma abordagem ampla da saúde da mulher na menopausa.
“Mas os pilares continuam sendo exercício físico regular, sono adequado, alimentação balanceada, manejo do peso, cessação do tabagismo e, quando indicado, terapia hormonal”, explica a médica.
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