tchéquia x áfrica do sul: o detalhe que mais repercutiu
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Espetáculo constrói narrativa poética que dialoga com públicos de todas as idades- Ale Catan / Divulgação
São Paulo
O teatro para crianças muitas vezes peca pelo excesso de didatismo, simplificando o mundo como se o público infanto-juvenil não acompanhasse pensamentos complexos. "O Pequenino Grão de Areia", de João Falcão, vai na contramão: traz o espanto diante das coisas simples e foge da condescendência. A montagem não mastiga explicações; prefere confiar na sensibilidade das crianças, deixando no ar perguntas sinceras sobre afeto e solidão, sem lição de moral.
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Os grãos de areia da praia não são heróis perfeitos. Eles têm contradições, medos, teimosias, choros e risos. A rotina serena do grupo se quebra quando um deles se apaixona por uma estrela. Não há vilão: o conflito brota do choque entre a lógica prática da maioria e o desejo desmedido do sonhador. O deboche inicial logo se desfaz, virando rede de apoio. Assim, o sonho, que parecia delírio solitário, acaba humanizando todo o grupo.
No palco, nada de telas ou truques digitais. A montagem aposta na força do encontro presencial e no trabalho consistente do elenco formado por atores e atrizes com trajetórias diversas no teatro, na música e no audiovisual, reunindo diferentes gerações, formações e linguagens cênicas.
O mar que destrói um castelo de areia, por exemplo, é evocado apenas pelo peso e pelo ritmo dos corpos dos atores. Eles conversam com a plateia, mostram as costuras do teatro e brincam com os próprios erros, num jogo que mimetiza as brincadeiras de infância, em que as regras se reinventam a cada instante. Leia também: No frio, descubra diferentes estilos de lámen e até receitas autorais
Esse jogo escancarado desfaz a seriedade do palco e convida o público para dentro da cena. Ao propor o hábito de encontrar formas de girafas, sapos e lagartas nas nuvens, a peça resgata a espontaneidade dos quintais e estimula o pensamento associativo das crianças.
A música nasce natural das falas, tocada e cantada ao vivo. O cenário limpo dá liberdade ao movimento, enquanto a luz conduz o espectador do sol da praia ao mistério do oceano. Embalados por sapatos coloridos que desenham coreografias e acrobacias que simulam a busca pelo céu, o espetáculo não termina no aplauso: oficinas e conversas estendem o aconchego no pós-peça, transformando o teatro em um diálogo real sobre como construímos nossos laços e lugares no mundo.
Três perguntas para…
… João Falcão Mais de entretenimento
Como é o exercício de olhar para um texto escrito no início da carreira e reescrevê-lo décadas depois? O que o tempo costuma pedir para um autor cortar ou acrescentar na própria obra?
É um pouco como se fosse um encontro comigo mesmo, com a idade e o pensamento que eu tinha na época. Foi uma experiência muito rica e divertida ao mesmo tempo. Acho que o tempo nos torna mais generosos. Durante o processo, enquanto buscava aprofundar os assuntos, foquei principalmente em tornar tudo mais simples e mais claro para quem assistisse.
Suas montagens costumam dar um peso muito grande ao trabalho corporal dos atores e à música feita ao vivo, abrindo mão de grandes pirotecnias tecnológicas. Por que apostar no despojamento e no analógico em uma época tão dominada pelas telas digitais? Leia também: Argentina lidera ranking FIFA com vantagem: o detalhe que mais repercutiu
Penso que a essência do teatro está no trabalho do ator. O que mais me encanta nele é a representação ao vivo, em que o público percebe todo o truque, mas mesmo assim consegue se envolver com a mágica que a cena provoca. No palco, acho que a representação é sempre mais importante do que a reconstituição.
Em tempos onde o consumo de entretenimento é tão rápido e efêmero, qual é a importância de estender a experiência do teatro para além do espetáculo, promovendo conversas e oficinas com o público após as sessões?
Conversar sobre o papel do teatro no mundo em que vivemos nos ajuda a compreender por que essa é uma arte que independe das atualidades de cada tempo. Ele é, sempre foi e sempre será um acontecimento efêmero. Não se deixa guardar como um filme ou um quadro na parede. Acho que, por isso mesmo, é eterno. Para amá-lo, é preciso compreender sua efemeridade como um valor.
Teatro Sesi SP- avenida Paulista, 1.313- Jardim Paulista, região central. Quinta e sexta, 11h. Sábado e domingo, 15h. Até 26/7. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Grátis em sesisp.org.br/evento
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