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Conheça Paulo Pedro Leal, artista que pintou as tragédias do cotidiano

'Bacanal', de Paulo Pedro Leal - Divulgação Matheus Rocha São Paulo Três navios afundam no mar enquanto dezenas de náufragos nadam em busca de ajuda

Conheça Paulo Pedro Leal, artista que pintou as tragédias do cotidiano

'Bacanal', de Paulo Pedro Leal - Divulgação

Matheus Rocha
São Paulo

Três navios afundam no mar enquanto dezenas de náufragos nadam em busca de ajuda. Esse esforço, porém, é inútil. Os sobreviventes são devorados por tubarões que transformaram o naufrágio em uma grande carnificina. Nesse cenário apocalíptico, todos parecem condenados. Mais do que uma abstração, a morte se apresenta como um dado concreto e inescapável.

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Essa pintura é uma das sínteses da produção de Paulo Pedro Leal, pintor que verteu para as telas uma violência cotidiana contra a qual parece não haver salvação. Não à toa, a obra é um dos destaques da exposição "Trágico Subúrbio", em cartaz na Pinacoteca da capital paulista. Com mais de 50 pinturas concebidas entre os anos 1950 e 1960, esse projeto é a primeira mostra de Leal em um museu do Brasil.

'Naufrágio', de Paulo Pedro Leal - Divulgação

Morto em 1968, o artista aprendeu o ofício de forma autodidata e atuou ao largo das grandes instituições de arte, vendendo suas obras por conta própria no centro do Rio de Janeiro. Foi nas ruas dessa metrópole que o galerista Jean Boghici encontrou a produção do pintor e decidiu apresentá-la ao circuito artístico. Embora tenha despertado o interesse de alguns colecionadores, as obras de Leal sofreram resistência tanto de museus quanto do mercado.

"Uma das primeiras razões para essa resistência tem a ver com o fato de ele ser um pintor negro e pobre", diz Renato Menezes, que assina ao lado de Pollyana Quintella a curadoria da mostra. Para ele, a natureza dos quadros também ajuda a explicar a pouca aceitação. Leia também: Em 'Toró', Vitor Araújo combina o rigor orquestral com a música de terreiro

Muitas obras de Leal retratam a barbárie da vida urbana e cenários que destoam das paisagens idílicas que costumavam agradar aos colecionadores da época. "Ele é um artista que vê na vida um terreno inconciliável e onde não há trégua", diz Menezes. "A alegria existe de maneira muito pontual e, mesmo assim, ela é quase sempre sorrateiramente interrompida."

Exemplo disso pode ser visto no quadro "Briga de Bar", em que a boemia deu lugar a um embate generalizado entre policiais e frequentadores. Ou ainda em "Crime no Hotel", trabalho no qual a tranquilidade de uma hospedaria foi interrompida por um assassinato.

Em comum, esses quadros retratam sempre dois grupos em lados opostos do cenário e personagens com o dedo em riste, como se fizessem uma acusação. "Esses espaços são o tempo inteiro atravessados e fatiados ao meio como uma lâmina", diz o curador.

Essa divisão espacial não se faz presente apenas em quadros que retratam cenários urbanos. Em "Paisagem com o Trem", um ambiente semi-rural é cortado pelos trilhos de uma ferrovia.

"Aqui, a ideia de conflito reaparece, só que por meio da oposição entre natureza e máquina", afirma o curador. "O modo como ele constrói o espaço é fundamental na elaboração desse tipo de retórica do conflito." Mais de entretenimento

A violência e o embate ganham contornos mais tétricos na tela "Afogamento dos Mendigos", em que vemos duas pessoas arrastadas por um rio caudaloso. O trabalho faz alusão a um caso real que aconteceu no Rio de Janeiro entre 1962 e 1963, quando agentes do Serviço de Repressão à Mendicância atiraram cerca de 20 pessoas em um dos afluentes do rio Guandu.

Conhecida como Operação Mata-Mendigos, o caso foi revelado por uma das sobreviventes da matança. Ao lado do quadro de Leal, é possível ver recortes de jornais sobre o caso. A imprensa, aliás, era uma fonte de inspiração para o artista, que transformava em arte o que lia no noticiário.

"Essa é a mesma lógica de pensamento visual dos artistas ligados à nova figuração", diz o curador, referindo-se ao movimento dos anos 1960 que incorporava às obras a estética da publicidade e imagens dos veículos de comunicação de massa. "Ele olhava para a imprensa e metabolizava tudo, transformando esses assuntos em pinturas, assim como os artistas de nova figuração." Leia também: No Inhotim, artista faz do rio São Francisco um espelho de transformações humanas

Ainda que retratasse com frequência a violência de sua terra natal, Leal também lançou um olhar irônico para a indulgência tão característica da elite daquela época. "Bacanal", por exemplo, mostra granfinos nus em um jardim, enquanto despejam champanhe uns sobre os outros e fumam charuto. É uma cena tão lasciva quanto hedonista.

"Esse trabalho é um comentário crítico extremamente sofisticado e inteligente sobre a liberdade da branquitude, em que tudo é possível", diz Menezes. Por outro lado, "A Casa do Capitão" mostra que essa mesma liberdade não é reservada a todos os corpos.

Na pintura, vemos uma mansão com grandes cúpulas e pilastras em meio à vegetação de tons rosáceos. Um casal está parado em frente à construção, como quem exibe com orgulho a própria riqueza. Essa altivez contrasta com a postura discreta de um empregado que carrega uma bandeja com bebidas.

"Ou seja, aos brancos tudo é permitido, enquanto aos negros resta o trabalho", diz Menezes, para quem o artista fez um retrato pungente da desigualdade racial que marca o país. "Ele mostra que o Brasil não vive uma democracia racial e que o Rio de Janeiro é uma sociedade cindida, em que não há possibilidade de conciliação."

Paulo Pedro Leal: Trágico Subúrbio

  • Quando De qua., a seg., das 10h às 18h. Até 8 novembro
  • Onde Pinacoteca - Praça da Luz, 2, Bom Retiro
  • Preço R$ 40

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