As instruções são simples. Primeiro, você imita uma baleia com a boca. Depois, "joga a sílaba ‘bu’".
Foi assim que o cantor Filho do Piseiro, fenômeno atual do forró, explicou em um vídeo viral sobre como fazer a sonoridade da batida da caixa da bateria, em frequência médio grave, que marca a maneira como o gênero é feito hoje para ser tocado nos paredões de som. Desde a virada do ano, Filho do Piseiro despontou como um dos artistas mais ouvidos do país no streaming. Mas além de suas músicas terem estourado, ele ficou famoso pela destreza com que reproduz essa sonoridade seca e cortante com a própria voz.
O "buh" —que pode também ser "tuh" ou "puh"—, virou febre como onomatopeia, símbolo de uma estética que vem se consolidando no forró há anos. " Quando estou cantando, boto isso na música e é o que a galera gosta", diz Everton da Silva, o nome de batismo do cantor.
" O povo pede ‘faz o médio’. É como em ‘uma rapariga é bom, três rapariga é bom demais, buh, buh’.
Aí pronto, foi o que consolidou. " Ele se refere à música "Raparigas", seu maior sucesso, ao lado de um medley de forrós antigos puxado pela canção " Leia também: Novo disco 'Fire Arena', de Ana Castela, não faz jus ao talento da cantora
Meu Pai Paga Minha Faculdade". Durante a entrevista, Filho do Piseiro reproduziu com a própria voz o som do médio grave sem cerimônia, como se o instrumento estivesse dentro dele. A abordagem é parecida com a que ele dá ao próprio canto, em que viaja por notas agudíssimas numa dinâmica acelerada de vai e vem.
"É um suingue que parece uma sanfona balançando", diz. " Tenho um trabalho de diafragma muito bom, uma resistência pulmonar.
A galera acha que é só fingir que estou cantando, mas tem técnica. Vou na métrica da banda, imaginando que sou o fole de uma sanfona." O "amazonense mais nordestino do Brasil", como se define, por ser filho de cearenses e pela afinidade com a música da região, passou uns seis anos cantando em festas e eventos de Manaus, às vezes por oito horas seguidas, antes de despontar para a fama.
Ele diz que começou a fazer o som do "buh" depois de ver os vídeos do influenciador Xandinho Médio Humano, o Boca de Médio Grave. Carismático, ele encaixava o "buh" no repertório da época, dominado pelo piseiro de teclado de Barões da Pisadinha e João Gomes, além de sertanejos, arrochas e bregas, no esquema de voz e violão, às vezes com playback no sintetizador.
Tudo mudou, diz, quando começou a mirar um estilo específico de forró, informalmente chamado de forrozão, em que o som do médio grave é dominante há mais de uma década. " Foi quando ouvi falar em em Junior Vianna, Forró de Qualidade, Claudio Ney & Juliana", afirma o cantor. Mais de entretenimento
" Quando escutei, me apaixonei por aquela levada, porque é muito acelerada, é suingada, uma coisa que vem de mim mesmo, um balanço, um negócio. "
Com os três artistas citados, Filho do Piseiro faz uma radiografia de sua estética —e também uma linha do tempo desse forrozão. Do primeiro deles, pegou o estilo de canto vai e vem que emula a sanfona; do segundo, os agudos sustentados no diafragma; e da dupla, a divisão das sílabas de um jeito veloz que carrega influência das emboladas. Em comum, todos usam o som do médio grave para fazer suas músicas soarem bem nos paredões. Leia também: maiores campeões da champions: o detalhe que mais repercutiu

É uma história que começa nos primeiros anos deste século —e por engano. As competições de som automotivo já eram uma cultura no Nordeste quando o grupo Lagosta Bronzeada lançou o álbum " Ao Vivo em Ipaporanga", gravado no interior do Ceará, no ano 2000, em que a mixagem foi mal feita, dando destaque exagerado a certas frequências médias e graves.
É o que diz Robson Cavalcante, ou Rob Som, fabricante de paredões e um dos maiores especialistas em som automotivo do Ceará. " Aquele CD tem uma caixa de bateria muito ressonante na frequência 277 hertz, que o pessoal gosta muito.
Quando bota no paredão, arrepia a pele da gente. Era uma caixa muito ‘ na cara,’ mas não era proposital, era um erro.
" Naquela época, ele diz, os sistemas de som tinham mais caixas graves. Com o crescimento dos rachas de som automotivo, passou-se a adotar mais cornetas, responsáveis pelos agudos.
Por volta de 2005, Rob Som já começou a explorar um som mais plano e encorpado, incluindo caixas de médio grave e tweeters. "Mas ainda tinha excesso de grave", diz. "
Dóia, tremia os peitos da gente. " Em 2007, ele e Lano Gama, dono do Lagosta Bronzeada, participaram de uma competição tocando aquele CD da banda, especificamente a faixa "Pétalas

