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Como 'Cidade dos Sonhos' passou de série rejeitada na TV a maior filme

[RESUMO] " Cidade dos Sonhos", obra-prima do diretor David Lynch, completa 25 anos consolidado como um dos maiores filmes da história —para muitos críticos, o

Como 'Cidade dos Sonhos' passou de série rejeitada na TV a maior filme do

[RESUMO] " Cidade dos Sonhos", obra-prima do diretor David Lynch, completa 25 anos consolidado como um dos maiores filmes da história —para muitos críticos, o melhor até agora do século 21. Nada em seu processo de produção, contudo, prenunciava essa reputação gloriosa.

Criado originalmente como série de TV, foi rejeitado por emissora e por pouco não ficou perdido para sempre, trajetória que espelha o tom alucinado do filme. Em entrevista, produtor e montadora comentam o trabalho com Lynch. Vinte e cinco anos após seu lançamento, "Cidade dos Sonhos" continua hipnotizando plateias e intrigando o público com seus mistérios.

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Hoje obra incontornável na carreira do diretor David Lynch, a produção com Naomi Watts estreou com barulho em 2001 e cravou espaço no cânone do cinema mundial. Lançado em Cannes naquele ano, o filme foi um furacão desde as primeiras sessões. Saiu com o prêmio de direção no festival e, no ano seguinte, recebeu uma indicação ao Oscar na mesma categoria.

Nas salas de cinema, o público reagia arrebatado à trama enigmática, cheia de situações inusitadas e com uma reviravolta que rompia a lógica da premissa. Na Folha, a crítica chegou a levantar Lynch como novo mestre máximo do mistério, no nível de Hitchcock e Buñuel. "Que nome dar a isso que vemos: alucinação, sonho, realidade, filme?

", escreveu Inácio Araujo na ocasião. " Lynch parece imaterializar o material, devolvê-lo ao estágio de ideia, o que consegue ao nos envolver na suposição de estarmos diante de uma ficção tradicional (com a segurança e o conforto de sabermos que vemos uma história). Leia também: Entretenimento: O que rolou na semana

" Passadas duas décadas, o longa se mantém forte no imaginário. Em 2022, na tradicional votação da revista britânica Sight and Sound, "Cidade dos Sonhos" foi eleito o oitavo melhor filme da história do cinema.

Era o único representante do século 21 no top 10. O alucinado filme de Lynch ficou à frente de clássicos como " Cantando na Chuva" (1952, 10º lugar), "

Aurora" (1927, 11º), " O Poderoso Chefão" (1972, 12º) e "Rastros de Ódio" (1956, 15º). Prova de sua crescente reputação é que na sondagem anterior, de 2012, ele ficou em 28º lugar.

Desde seu lançamento, tornou-se também um dos filmes mais escarafunchados da história do cinema, revirado em seus mínimos detalhes por legiões de críticos de cinema, filósofos, psicanalistas, artistas plásticos e cinéfilos pelo mundo. Outro exemplo, agora local, do fascínio provocado pelo filme é que ele retorna, de tempos em tempos, aos cinemas brasileiros, em sessões especiais de todo tipo. Só no circuito comercial foram três lançamentos: em abril de 2002, quando estreou oficialmente no país;

em 2017, quando foi reexibido pela Zeta Filmes; e no ano passado, quando a Retrato Filmes distribuiu a remasterização em 4K da produção, poucos meses depois da morte de Lynch. Esta recorrência nas telonas ajuda a explicar como a produção se tornou a principal porta de entrada para novos fãs do diretor, ao lado da cultuada série " Twin Mais de entretenimento

Peaks " (1990-1991).

Rogério Ferraraz, professor do programa de pós-graduação em comunicação da Anhembi Morumbi e autor de tese de doutorado sobre o cinema de David Lynch, comenta que o filme também conquista gerações mais novas pela lógica de quebra-cabeça, que desafia a percepção do público. " Quando parece que o público preencheu o quebra-cabeça da trama, ele descobre que existem mais peças do que as necessárias.

Peças importantes, que abrem o jogo novamente e o arremessam para um lado completamente diferente e inesperado. " Essa imagem sugerida por Ferraraz faz muito sentido quando se leva em conta o histórico tortuoso da produção, quase tão improvável quanto seu próprio enredo. Leia também: Missa de 7º dia de Laura: o detalhe que mais repercutiu

O filme foi um dos projetos de Lynch que correram risco de não chegar às telas, passando por contratempos que forçaram o cineasta a repensar a lógica da premissa —da mesma forma que ocorre com os fãs, quando assistem ao longa pela primeira vez e são surpreendidos pelos rumos dos personagens. " Cidade dos Sonhos" nasceu como episódio piloto de uma série, bancada pelo canal ABC em 1998.

Na época, o projeto pretendia ser uma tentativa de retorno triunfal à TV americana e à emissora, após o impacto de "Twin Peaks". O seriado de 1990, criado em parceria com o roteirista Mark Frost, transformou para sempre a TV e a carreira do cineasta, mas também virou um tormento. Com a interferência e a pressão da ABC sobre os rumos da trama, Lynch e Frost abandonaram a produção na metade da segunda temporada, uma decisão que derrubou a audiência e, depois, causou o fim do programa.

Lynch revisitou " Twin Peaks

" algumas vezes nos anos seguintes, por filmes e uma minissérie, mas no fim dos anos 1990 estava determinado a nunca mais trabalhar na TV. Ele ainda era atormentado pelos cancelamentos de "On the Air", de 1992, e de "Quarto de Hotel", de 1993, duas séries que produziu e que naufragaram na audiência.

O projeto de um novo programa só andou por esforço de Tony Krantz, executivo que costurou o retorno do diretor à ABC. Então à frente da divisão de TV da Imagine Entertainment, produtora fundada por Ron Howard e Brian Grazer, ele tinha acabado de firmar um acordo com a emissora para a concepção de novos pilotos, e nisso viu uma oportunidade para Lynch. A escolha foi de caso pensado.

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