Brasil e Argentina já estiveram em guerra?
Ler matéria →Como a morte do pai mudou Jão e sua relação com a música, a fé e as redes

Crédito, Divulgacão
- Author, Pedro Martins
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published Há 27 minutos
- Tempo de leitura: 7 min
"Na hora em que tudo aconteceu/ a padaria serviu pães, o hospital fez mães", canta Jão na primeira faixa de seu novo álbum, Memórias Póstumas, que ele compôs em homenagem a seu pai, Carlos Alberto Balbino, que morreu no ano passado de arritmia.
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A crueza com que ele se aproxima da perda, algo que atravessa toda a sua discografia e que atrai fãs e detratores em igual medida, foi a maneira que o cantor encontrou de lidar com o luto enquanto se afastou dos holofotes por um ano e meio.
"Quando você passa por isso, é exposto a um sentimento que ninguém nunca te ensinou, porque não existe comparação. Você é apresentado a uma nova lente da vida", diz Jão ao receber a BBC News Brasil no Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde gravou um de seus novos clipes.
"Parece, inclusive, que quem já perdeu pessoas tem uma ligação quase familiar, sanguínea, entre si. A gente se entende de uma maneira que eu não entendia antes." Leia também: O que explica os ventos de 100 km/h que causaram mortes, destruição e apagões
Era a primeira pausa após quase uma década, desde que despontou nas redes sociais cantando covers de artistas como Marília Mendonça e Adele.
Desde então, ele havia lançado quatro álbuns autorais, alcançado quase 2 bilhões de reproduções no Spotify, lotado shows em festivais como Rock in Rio e visto seu cachê chegar a R$ 1 milhão por show, mesmo patamar de astros do sertanejo como Gusttavo Lima.
O CNPJ só tinha o que comemorar. Mas o CPF estava cheio de questões mal resolvidas, como o luto pela avó, de quem era muito próximo, mas de quem mal pôde se despedir, depois que precisou deixar o velório às pressas para cair na estrada para mais um show.
Mal sabia que, no meio do descanso, teria de lidar com mais uma morte, a do pai, que o fez perder toda a vontade de compor, cantar ou até de escutar música.
"Foi um momento muito difícil, porque, neste período em que tinha perdido minha avó, eu nunca tinha lidado com essa questão da vida e da morte, da insignificância das coisas. Era algo que rodeava minha cabeça e estava me afligindo", ele relembra. Mais de mundo

Crédito, Hugo Comte/Divulgação
Isolamento no interior
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O hiato na cidade natal, no interior paulista, na pequena Américo Brasiliense, de 38 mil habitantes, tampouco foi fácil.
Se, por um lado, era reconfortante reencontrar-se com o estilo de vida sossegado que o formou, o cantor viu sua privacidade ser violada ao ser fotografado com alguns quilos a mais, o cabelo grande e a barba por fazer em registros que viralizaram nas redes.
"Parecia que um dia eu estava fazendo um show para 50 mil pessoas e agora estava lá, indo à padaria com minha mãe, resgatando uns gatos com minha irmã, vivendo essa vida que eu vivia [na adolescência]", ele conta.
"Passei muito tempo renegando não minhas origens, mas achando que tinha que ir para a cidade grande, com a mentalidade de que sou cosmopolita, aí quando cheguei [no interior] entendi o quanto o cotidiano dali sou eu. É uma coisa que te dá um tapa na cara, porque as distrações são menores, o dia tem começo, meio e fim."
O ponto de virada aconteceu quando Jão saiu para correr de madrugada— a única hora em que encontrava privacidade— e, ao escutar o álbum mais recente da neozelandesa Lorde, Virgin, tão confessional quanto seu Memórias Póstumas, teve uma crise de choro e chegou à conclusão de que a música ainda era a melhor maneira de lidar com o luto.

O riso para sobreviver ao luto
Relação 'conflituosa' com fé e espiritualidade


