Analistas internacionais e especialistas em segurança pública afirmam que a medida dos EUA deve ter pouca eficácia no combate às facções e trazer risco econômico e prejudicar investigações.
Especialistas em segurança pública analisam decisão do governo americano de classificar PCC e CV como organizações terroristas internacionais
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (28) que vai classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida entra em vigor em 5 de junho.
Leia no AINotícia: EUA classificam CV e PCC
Segundo especialistas, a classificação amplia a capacidade de atuação de órgãos americanos, como o Pentágono e a CIA, facilitando a destinação de recursos e justificativas para operações mais assertivas, inclusive de forma unilateral.
Há, ainda, preocupações sobre impactos econômicos e financeiros em empresas, além de possíveis tensões diplomáticas e riscos à soberania brasileira, em cenário semelhante ao observado na relação entre EUA e México no combate ao narcotráfico. Leia também: A reação de Lula à decisão dos EUA de declarar CV e PCC como 'terroristas'
'Marcola não vai perder uma noite de sono'
Ainda na avaliação dos especialistas, a classificação não afeta em nada as facções e pode até ajudá-las, em vez de combatê-las.
"Marcola não vai perder uma noite de sono com isso. O PCC e o CV vão continuar fazendo negócios. A pessoa que está no mundo do crime está disposto a correr riscos", disse Cerqueira ao g1.
Vladimir Aras, professor de direito internacional público da Universidade de Brasília (UnB), complementa: “Dar um rótulo nem sempre muda o remédio. É o caso do Talibã no Afeganistão. Os fatos mostram que um país invadido por duas potências tem o governo mais virulento do planeta. Nem uma guerra resolveu. Então, o rótulo numa lista tampouco terá efeito concreto contra o PCC e o CV”, disse ao g1.
Na avaliação do analista de relações internacionais Oliver Stuenkel, em vez de facilitar, a medida pode prejudicar a cooperação entre agências e impactar investigações, pois as informações tendem a subir rapidamente para o nível federal, dificultando o acesso das polícias locais brasileiras a esses dados. "Pode ser mais difícil para forças policiais brasileiras de acessar essas informações", comentou em entrevista à GloboNews.
Embaixada dos EUA no Brasil se posiciona sobre classificação de PCC e CV como terroristas Mais de mundo
Impacto financeiro
Stuenkel também afirma que a designação de grupos como organizações terroristas pode atingir empresas e instituições financeiras brasileiras, porque permite aos EUA aplicar sanções financeiras mais duras.
"O ambiente de negócios pode ser afetado pela insegurança jurídica e pelo receio de investidores e bancos de sofrerem sanções americanas, mesmo sem comprovação de vínculo com o crime organizado", disse o cientista político.
Para Cerqueira, empresas que trabalham com o crime organizado poderiam ser investigadas se o fluxo de informação entre Brasil e Estados Unidos não fosse prejudicado. Leia também: Casa Branca lança site
Presença do Comando Vermelho no Amazonas — Foto: Divulgação
Ao JN, Roberto Uchoa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que a decisão também coloca setores do Brasil na mira de Trump.
"Um ato unilateral desse, o que acontece é que coloca uma pressão sobre o governo brasileiro e sobre o sistema financeiro brasileiro, que passa também possivelmente a ser alvo de sanções, possivelmente com uma ligação de que há infiltração dessas organizações no sistema financeiro ou até mesmo o setor de combustíveis brasileiro, que também pode ser alvo de sanções. Então a verdade é essa: coloca o Brasil e seus diversos setores na mira do governo dos Estados Unidos”.
Segundo os especialistas, a existência de organizações consideradas terroristas ainda pode justificar ações mais diretas do EUA.
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