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Cinemark usa brecha na Cota de Tela e exibe filme de 2024 mais de cem vezes

Um filme infantil está sendo usado de atalho pela rede Cinemark para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo voltado ao fomento do audiovisual brasileiro que

Cinemark usa brecha na Cota de Tela e exibe filme de 2024 mais de cem vezes ao dia

Um filme infantil está sendo usado de atalho pela rede Cinemark para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo voltado ao fomento do audiovisual brasileiro que obriga exibidoras a reservar parte da programação a produções nacionais. Trata-se de "Zuzubalândia - O Filme", produção lançada nos cinemas originalmente há dois anos.

Só no estado de São Paulo, a rede programou 114 sessões do título nesta quarta-feira, quase metade delas às 11h, o restante entre o meio-dia e 14h45. Parte de um acordo de exibição de exclusividade entre a Cinemark e sua criadora, "Zuzubalândia" estreou em setembro de 2024, ficou em cartaz até dezembro daquele ano e voltou à programação em outubro do ano passado. O filme também está no catálogo da HBO Max.

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Procurada por email na semana passada, a Cinemark diz que não comenta a Cota de Tela, e que exibe "Zuzubalândia" dezenas de vezes por dia por causa do programa Projeto Escola. Nele, instituições de ensino podem reservar, mediante pagamento, salas inteiras para grupos de estudantes.

A rede não explicou, porém, até a publicação deste texto, a relação do filme com a ação. Segundo o regulamento, o projeto vale para qualquer filme, desde que tenha liberação de sua distribuidora. Um gerente da Cinemark afirmou à reportagem que todos os filmes da grade entram no programa se a sua classificação indicativa corresponder à idade dos estudantes —como os americanos "

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Veste Prada 2 ", hoje em cartaz .

Embora a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, não tenha respondido se está usando " Zuzubalândia" para bater a Cota de Tela, funcionários de uma unidade da Cinemark afirmaram à reportagem que, internamente, a diretriz é que o filme seja programado no começo do dia para alcançar as metas estabelecidas pela regra.

Alguns complexos, inclusive, são orientados a abrir às 10h30, exibir "Zuzubalândia" entre 11h e meio-dia, fechar as portas em seguida e só retomar as operações por volta de 14h. A Folha visitou sessões da animação na quarta-feira passada, em uma unidade em São Paulo que a exibia em quatro salas, simultaneamente, ao meio-dia. Nenhuma delas tinha público.

O cinema ainda estava em processo de abertura, e uma funcionária que limpava uma das salas se mostrou surpresa com a presença da reportagem. Ela imediatamente apagou as luzes da sala, que estavam acesas, apesar do projetor já ligado. No Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, plataforma da Ancine, a Agência Nacional do Cinema, que compila dados de bilheteria e de obras audiovisuais em exibição no país, não há registros das sessões de "Zuzubalândia" por uma questão técnica.

O filme é considerado um média-metragem por ter apenas uma hora de duração, dez minutos a menos do que o definido para longas, o que deveria impedi-lo de ser contabilizado para a Cota de Tela. Mas a Cinemark encontrou aí uma brecha. O texto define que a programação deve ser "formada, predominantemente, por obra de longa-metragem". Mais de entretenimento

Leandro Mendes, secretário de regulação da Ancine, diz que o órgão está avaliando o caso e que considera aceitar a inclusão de "Zuzubalândia" nas metas estabelecidas para a Cinemark no ano passado por causa da pouca diferença no tamanho do filme. A curta duração ainda ajuda a explicar por que a Cinemark escolheu exibir tantas vezes este título em vez de outras produções nacionais.

Rápida, ela dá maior rotatividade às salas em que é exibida —ou seja, interfere menos na programação, e libera espaço para obras de maior apelo comercial. A pedido da Folha, a Ancine compilou os dados de "Zuzubalândia", que mostram que neste ano foram programadas 17.237 sessões do filme em complexos da Cinemark de todo o país. Elas foram vistas por apenas 1.882 pessoas, numa média de 0,1 espectador por exibição.

Ainda que se aproveite de uma brecha da Cota de Tela, a estratégia da Cinemark não viola a legislação. A norma, em vigor desde junho de 2024, estabelece um número mínimo de sessões de filmes brasileiros ao longo do ano —no caso da Cinemark, 16% do total de sessões—, mas não proíbe a repetição de um mesmo título. Na prática, exibidoras têm liberdade para definir quais obras exibir, quantas vezes, em que horários e em quais salas. Leia também: Cinesystem dá ingresso grátis de 'Toy Story 5' para calvos na segunda

Assim, as redes podem concentrar dezenas de sessões de um mesmo filme nacional num só período do ano, batendo a meta com antecedência e se desobrigando de exibir produções brasileiras em meses nos quais há muitos blockbusters estrangeiros em cartaz. Em dezembro, o novo "Vingadores" e o terceiro capítulo de "Duna "

prometem monopolizar as salas. A reportagem analisou a programação de outras redes em São Paulo, como Cinépolis, UCI e Kinoplex, e não encontrou casos flagrantes como o de "Zuzubalândia", ainda que os filmes nacionais sigam, em maioria, programados em horários menos nobres, antes das 17h. O cumprimento da regra é fiscalizado pela Ancine, que afirma estar ciente da prática da Cinemark, mas não prevê punições à exibidora.

Leandro Mendes diz que a intenção é criar mecanismos para incentivar a presença de filmes brasileiros na faixa nobre das exibidoras, ou seja, a partir do fim da tarde. Em instrução normativa publicada nesta quarta-feira, a agência passa a prever bonificações para sessões exibidas após as 17h. "

Notamos essa fragilidade na norma, e precisamos fazer adaptações para regular, mas a venda de ingressos está menor se comparada ao período pré-pandemia", afirma Mendes. " A gente também não pode obrigar o exibidor a quebrar o seu cinema.

Pedimos para dialogar com a Cinemark, mas não me parece que eles estão fazendo isso de má-fé", diz ele sobre a multinacional sediada no Texas, líder de mercado no Brasil. A repetição de "Zuzubalândia" na grade pode ser justificada também pelo acordo de exibição exclusiva firmado entre a Cinemark e a produtora, diretora e roteirista da animação Mariana Caltabiano. A diretora diz que o contrato prevê que 70% da bilheteria líquida seja direcionada à rede, enquanto ela retém os 30% restantes.

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