Não é possível conversar com Chris Evert sem perceber desde logo que o sentido de humor aguçado que a acompanhou durante toda a carreira continua presente. Assim que a câmara se liga, assim que o Zoom está pronto e preparado, soltamos um simples hello, thank you so much for the opportunity, how are you?. “Still alive”, responde.
Para Chris Evert, estar viva é mesmo a melhor resposta que pode existir. Aos 71 anos, a viver na Flórida onde também nasceu nos anos 50, continua a ser muito mais do que uma antiga tenista. Foi líder do ranking WTA durante 260 semanas, o quarto maior tempo acumulado, conquistou 18 Grand Slams, é ainda a recordista feminina de Roland Garros com sete triunfos e divide com Serena Williams o recorde do US Open, com seis.
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Partilhou com Martina Navratilova uma das melhores e maiores rivalidades de sempre e coloriu as páginas dos tablóides com a vida pessoal, entre os três casamentos, os três filhos, o aborto enquanto namorava com Jimmy Connors, a traição com o cantor Adam Faith quando era casada com John Lloyd e o cancro nos ovários que tem combatido nos últimos anos. Conversar com Chris Evert, portanto, não é simples. As frases são constantemente interrompidas por pensamentos não contraditórios, mas desafiantes, numa espécie de discussão interior que passa para quem está a ouvir.
A norte-americana nunca tem certezas absolutas sobre nada, mas tem opiniões muito fortes sobre tudo – e também não tem grande receio em partilhá-las. Na antecâmara do arranque de mais uma edição de Roland Garros, o sítio onde celebrou em sete ocasiões e mais do que qualquer outra mulher, a agora comentadora da Eurosport falou com o Observador sobre o passado, o presente e o futuro. O segundo Grand Slam do ano não vai contar com Carlos Alcaraz, que se lesionou no pulso há cerca de um mês e que também já anunciou que vai falhar Wimbledon, e Chris Evert não tem dúvidas: sem o espanhol, Jannik Sinner será dono e senhor de Paris.
“ O Jannik vai entrar no verão a ser completamente dominante e sem o Carlos Alcaraz, que é o principal rival. Gostava de que o Carlos estivesse na discussão. Leia também: Seleção Brasileira inicia treinos para Copa do Mundo com desfalques
Acho que seria muito mais interessante para o mundo do ténis e para o mundo no geral. Mas o Jannik está a ser completamente dominante e não tem qualquer falha no seu jogo, não tem fragilidades, está constantemente a atacar. E ao dizer isto até posso achar que ele conseguiria vencer o Carlos de qualquer maneira, porque tornou-se muito forte mentalmente também.
Acho que os adversários já entram no ‘court’ intimidados, já não têm confiança, já não acreditam que podem vencê-lo. Mas o Jannik trabalhou para isso. Se se mantiver bem e saudável, é ele o seu principal inimigo.
Se se mantiver em forma, sem lesões… Pode ter uma carreira verdadeiramente notável”, começa por dizer. Jannik Sinner venceu Indian Wells, Miami, Monte Carlo, Madrid e Roma já em 2026, controlando por completo o pós-Open da Austrália onde caiu nas meias-finais contra Novak Djokovic – e viu Carlos Alcaraz bater o sérvio na final para conquistar o único Grand Slam que ainda não tinha. Agora, em Roland Garros e um ano depois de ter perder uma das finais mais épicas de todos os tempos para o espanhol, o italiano parece mesmo não ter rival à altura à exceção do experiente sérvio, que apesar de não ter muito tempo de jogo nos últimos meses continua a perseguir o sonho do 25.º major.
“Estava a pensar nisso no outro dia, se o Sinner tivesse vencido na Austrália podia fazer o Grand Slam este ano. O problema é que se olharmos para o Zverev, para o Casper [Ruud], para os tenistas desse nível, eles têm de jogar melhor do que o seu melhor para vencer o Jannik. Não podem jogar apenas o seu melhor ténis, não chega.
Têm de jogar melhor do que o seu melhor porque o Jannik está um nível acima de toda a gente, atualmente. Quanto ao Novak, tenho um respeito tremendo por ele e acho que nunca podemos descartá-lo. Mas não tem tido tempo de jogo. Mais de esporte
Não está com ritmo. E temos mesmo de equacionar se uma ou duas semanas de ténis de terra batida é o suficiente para ele chegar ao seu melhor. Porque ele vai ter de estar no seu melhor se defrontar o Jannik.
Claro que nunca podemos descartar o Novak, é o verdadeiro campeão, mas questiono mesmo se estes dias serão suficientes para ele estar preparado e para chegar ao nível de confiança necessário para vencer o Jannik. Para mim, Roland Garros já é do Jannik e basta-lhe jogar apenas bem”, sentencia Chris Evert. No quadro feminino, contudo, as certezas são poucas ou nenhumas.
Aryna Sabalenka parte como favorita, até por ser a líder do ranking WTA, mas as eliminações nas primeiras rondas de Madrid e Roma nas últimas semanas criam dúvidas sobre o momento da bielorrussa. O ténis jogado por mulheres atravessa um período de enorme competitividade, com cinco vencedoras diferentes nos últimos cinco Grand Slams, e é impossível prever se Sabalenka vai confirmar o favoritismo ou ceder a Iga Swiatek, Coco Gauff ou Elena Rybakina. Até para Chris Evert. Leia também: João Fonseca vira o jogo em Roland Garros e encara Djokovic
“Ela quase ganhou no ano passado. Mas perdeu a cabeça, tornou-se demasiado emotiva e perdeu o jogo. Ficou destruída e quando falou depois da final disse logo que nunca iria deixar que algo semelhante acontecesse outra vez.
Acho que ela aprendeu grandes lições nos últimos tempos e tenho visto algumas melhorias, está mais contida, mas continua muito confiante porque sabe que já ganhou tanta coisa. Sabe que as adversárias vão sempre ficar nervosas a jogar contra ela, sabe que é líder do ‘ranking’ por algum motivo, sabe que disputa os pontos importantes sob pressão. Acho que ela tem a confiança certa e que tem conseguido controlar melhor as emoções.
O problema dela na terra batida é que não consegue fechar os jogos tão depressa, tem de bater mais bolas, tem de bater 10 ou 12 bolas para ganhar um ponto. A superfície é mais lenta, as bolas não vão a centenas de km/h. Ela nunca ganhou em Roland Garros, é número 1 do ‘ranking’, claro que sente pressão.
Claro que deve sentir-se um pouco nervosa, mas é a favorita. No papel, pelo menos, é a favorita”, diz a norte-americana, recordando que Coco Gauff é a campeã em título depois de ter derrotado precisamente Aryna Sabalenka na final do ano passado. As últimas semanas do universo do ténis têm ficado marcadas pela ameaça de um protesto, um boicote ou uma greve por parte dos tenistas – e tudo devido aos prize money, ou seja, ao dinheiro que ganham por participação ou vitória em cada torneio.
Os 20 melhores tenistas do mundo, homens e mulheres, uniram-se numa espécie de aliança informal conhecida como Project RedEye e já abriram a porta a um boicote às competições, agendando um protesto para esta sexta-feira, o media day de Roland Garros. Isto porque, na antecâmara do Grand Slam, a Federação Francesa de Ténis anunciou um aumento de 9,5% no prize money desta edição, o maior crescimento dos últimos três anos. Para os tenistas, porém, o valor é insuficiente: até porque significa que só 13 a 15% do valor total das receitas de Roland Garros é atribuído aos atletas, uma diferença grande para os habituais 22% dos principais torneios ATP e WTA.

