‘Café com Mounjaro’, publis e mais: mercado ilegal de tirzepatida invade o Brasil com ajuda de influenciadores Famosos brasileiros viram destaque em eventos e rostos de campanhas de produtos liberados no Paraguai, mas proibidos no Brasil e em outros países
Um salão iluminado por lustres, taças de champanhe circulando e recepcionistas com o corpo inteiro coberto de tecido dourado. Foi nesse cenário que influenciadores brasileiros foram recebidos, em abril, em um evento ligado à farmacêutica paraguaia Quimfa SA, realizado em Ciudad Del
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Este. O evento girava em torno do “Tirzec”, produto apresentado como uma versão própria da tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro. Essa substância é patenteada, e uma única empresa detém os insumos para a sua produção em todo o mundo.
Mas, no Paraguai, brechas legais permitem o uso do termo ‘tirzepatida’ e até a sua suposta produção por outras marcas. Embora produtos desse tipo não possam ser comercializados, importados ou mesmo divulgados no Brasil, quem subiu ao palco do evento não foram nomes do mercado paraguaio, mas figuras conhecidas do universo fitness brasileiro. As estrelas da noite eram famosos como Juju Salimeni, Paulo Muzy e Gracyanne Barbosa.
E ação foi chamada de “Encontro de Gigantes”. Segundo os posts, a maioria deles teria sido convidada pela Farmácia Triunfo, drogaria paraguaia que se define como “distribuidora oficial do Tirzec” no Instagram. A Triunfo, que se diz uma “farmácia esportiva”, também se dá o título de “distribuidora oficial da Lander“, uma empresa especializada em esteroides anabolizantes. Leia também: No Dia das Mães, alguns conselhos para essas eternas equilibristas
Mais detalhes do evento não foram divulgados, mas esse formato não é bem uma novidade. Meses atrás, o laboratório Eticos Paraguay, que comercializa uma suposta versão do Mounjaro chamada Lipoless, fez uma grande cerimônia para divulgar, também, a sua futura cópia da retatrutida, um composto experimental cuja versão original nem saiu do laboratório ainda. Esse solenidade contou com figuras como a atriz Deborah Secco e o influenciador Renato Cariani, apontado, segundo conteúdos encaminhados à VEJA SAÚDE, como um dos principais rostos da campanha para a divulgação do Lipoless no território nacional.
Essas e outras festas são exemplos de como empresas paraguaias têm apostado em ações de alto impacto, com estética de luxo e forte presença digital, para alcançar consumidores brasileiros. Na esteira desse movimento, cresce também um nicho de influenciadores especializados na criação de conteúdos sobre o mercado de canetas emagrecedoras do Paraguai, mesmo que sem vínculo comercial com as marcas. A divulgação focada em brasileiros, porém, contrasta com o fato de que a entrada desses produtos no Brasil, na imensa maioria das vezes, só é possível por meio de contrabando.
Influenciadores em foco Além dos eventos envolvendo grandes influenciadores do Brasil, mensagens obtidas por VEJA SAÚDE sugerem que brasileiros ligados às farmacêuticas podem estar oferecendo pagamento, além de amostras grátis para testagem de canetas em troca da promoção do produto nas redes sociais. O influenciador Fábio Tavares, por exemplo, informou ter sido vítima de um contrato enganoso relacionado ao produto Lipoless, da farmacêutica Eticos Paraguay.
Segundo relatou, uma equipe teria o procurado para fazer a divulgação, informando que se tratava de um produto “100% legalizado no paraguai” e fabricado por uma indústria “centenária” e “consolidada”. Nas conversas, o representante da agência informa que, embora o produto ainda não seja comercializado no Brasil, a campanha teria o objetivo de “posicionar a marca no país”. Esse tipo de ação, porém, oferece diversos riscos tanto para a saúde dos influenciadores, quanto a dos compradores, como mostra a própria história de Tavares, que foi levado ao pronto-socorro após usar a tirzepatida do Paraguai para a campanha publicitária.
Segundo o jovem, após a primeira aplicação, ele apresentou um quadro de hipoglicemia grave e precisou de atendimento médico de urgência. O produto enviado pela empresa, diz o influenciador, seria a versão da caneta com a dose máxima, de 15 miligramas — seis vezes acima da recomendação para um primeiro uso. Além disso, teria chegado em sua casa em más condições de conservação. Mais de saude
Envolvimento de Cariani A campanha estaria sendo encabeçada no Brasil pela marca do empresário Caique Moraes, mais conhecido como “Caique Parça”, além de englobar pessoas que se declaram como profissionais de relações públicas ligados à marca Lipoless no Paraguai. Procurados para comentar sobre a possível relação da empresa brasileira de marketing com a Eticos, os responsáveis pelas mensagens disseram que a agência não iria se manifestar.
A reportagem também tentou contato com a farmacêutica paraguaia, mas não obteve resposta até esta publicação. Ainda de acordo com as conversas que a VEJA SAÚDE teve acesso, a campanha conta com grandes influenciadores da área fitness, como o químico Renato Cariani, que já chegou a ser indiciado por tráfico de drogas em 2024, por supostamente promover o desvio de produtos químicos usados na produção de drogas ilícitas.
“ Assumimos o marketing de influência aqui [no Brasil]. Inclusive, o Renato Cariani já está divulgando o produto (posso te mandar um vídeo dele falando sobre)”, diz uma das mensagens. Leia também: Filme mostra um Japão distópico que encoraja a eutanásia dos idosos
Cariani é também sócio de Caique Moraes, dono da empresa Caique Parça, na G Farma, empreendimento que fornece suplementos manipulados para saúde, beleza, emagrecimento e performance. Nas redes sociais, os dois já relataram envolvimento com ações de marketing da empresa Eticos, incluindo o evento onde foi feito o anúncio de uma futura cópia da retatrutida. Em vídeo, Caique conta que foi o responsável por divulgar o evento, fazendo, inclusive, o contrato com a atriz Deborah Secco, que marcou presença no lançamento, como mencionado acima.
À época do evento, em resposta, até mesmo a Dinavisa (agência sanitária paraguaia similar à Anvisa) destacou que o produto anunciado pela farmacêutica paraguaia não possui registro sanitário vigente nem autorização para sua comercialização no país, tampouco consta sua aprovação por autoridades regulatórias reconhecidas internacionalmente. Mas Cariani é frequentemente visto em outros eventos do Lipoless, além de já ter produzido diversos conteúdos sobre o produto. Em um dos vídeos, por exemplo, chega a dizer que o fato de o produto não circular no Brasil seria fruto de questões burocráticas.
“E uma questão de qualidade? não. É uma questão de patente”, disse.
Um nicho em ascensão De maneira geral, atualmente, existem dezenas de influenciadores — inclusive médicos — com perfis criados exclusivamente para falar das canetas antiobesidade vindas do Paraguai ou tendo o assunto como tema principal. Nesse ecossistema, estão perfis de dicas, de divulgação de farmácias paraguaias “especializadas” e diários de uso do produto.
Parte das páginas até incorpora a sigla “PY” (de Paraguai) no próprio nome de usuário para sinalizar o foco do conteúdo. Nas contas, é ensinado desde como adquirir o produto no que seriam fontes confiáveis até como importá-lo para o Brasil. Ainda, são divulgadas ‘notícias’ sobre esse mercado, como as novas marcas lançadas e comparações entre os efeitos de cada produto.
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