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Bruna Maia reescreve livro sobre transtorno mental feito em episódio de mania

Bruna Maia escreveu em três dias a primeira versão de " Na Beirada", seu novo romance, durante um episódio de hipomania

Bruna Maia reescreve livro sobre transtorno mental feito em episódio de mania

Bruna Maia escreveu em três dias a primeira versão de " Na Beirada", seu novo romance, durante um episódio de hipomania. O manuscrito foi comprado pela Rocco, mas a editora condicionou a publicação a uma ampla reescrita.

Nos dois anos seguintes, a autora pesquisou psiquiatria, institucionalização e relatos de pacientes antes de refazer totalmente o texto, mantendo os principais elementos da história. " Em 2022, achei que tinha escrito a coisa mais genial do mundo", afirma Maia, autora da coluna X de Sexo, na Folha.

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Ao reler o original, percebeu que o estado mental acelerado em que o produzira também havia deixado marcas na linguagem. Aproveitou parte desse material na nova versão, mas refez a estrutura, alternou primeira e terceira pessoas e reescreveu o livro inteiro. Ela resume o processo adaptando uma frase constantemente atribuída a escritores: "

Escreva bêbado, edite sóbrio", mas aplicada ao seu estado mental. Na crise, produziu cerca de 50 mil palavras (cerca de 200 páginas de um livro) em três dias; na reescrita, decidiu o que conservar daquela velocidade. A protagonista do livro é Cassandra, uma programadora reclusa e emocionalmente instável que decide prestar concurso para investigadora da Polícia Civil.

Maia, que tem grande interesse por mitologia grega, deu a ela o nome da princesa de Troia condenada por Apolo a prever o futuro sem jamais ser ouvida. Cassandra tentou alertar os troianos contra o cavalo que destruiria a cidade, episódio do mesmo ciclo mitológico retomado por Christopher Nolan em " A Odisseia", que estreou no cinema há pouco. Leia também: Maior equívoco do filme 'A Odisseia' é misoginia do diretor Christopher Nolan

" Ela dialoga com o feminino de hoje. As mulheres são desacreditadas quando denunciam assédio, quando denunciam abuso ou quando chegam ao médico e ele diz que elas não têm nada", diz a escritora.

O interesse pelo tema se cruza com a experiência pessoal de Maia, diagnosticada com transtorno bipolar tipo 2. A condição combina episódios depressivos com períodos de hipomania, estado de aceleração, aumento de energia e sensação de grandeza menos intenso que a mania característica do transtorno bipolar tipo 1. A autora diz estar estável há anos e afirma que o tratamento psiquiátrico mudou sua vida.

Isso não a impediu de construir um romance crítico à psiquiatria e à medicalização. Para a pesquisa, leu livros, ouviu relatos de pacientes e procurou até reclamações sobre clínicas psiquiátricas publicadas na internet. "

Eu sou fascinada por esse terreno: o que é um comportamento humano normal, o que é um comportamento que apenas diverge da norma e o que de fato é um transtorno mental? ", pergunta. "

Na Beirada" sugere que a loucura de Cassandra pode ser também uma reação ao patriarcado. Maia relaciona o sofrimento psíquico às estruturas sociais e lembra que comportamentos femininos que contrariavam o esperado fo ram historicamente tratados como doença. " Mais de entretenimento

O sofrimento social, seja o trabalho excessivo, o racismo ou o machismo, tem forças enlouquecedoras", diz. " Beleza, ela é louca, mas o que a tornou louca?

" O romance contém diversas cenas de sexo, mas Maia afirma que elas funcionam sobretudo como espaços de disputa de poder entre os personagens. Portanto, quem buscar um romance erótico da colunista de sexo do jornal não o encontrará aqui. Leia também: Anitta se irrita com fãs que reclamaram da proibição da venda de bebidas

" Embora tenha uma história de amor, de apaixonamento e de tesão muito forte, esse não é o foco. "

A música organiza lembranças e relações. Roberto Carlos ocupa o centro dessa construção como parte da memória afetiva brasileira, mas o livro cita ainda a tropicália, T. Rex e Tchaikovsky. Durante uma internação, "Amor Perfeito", do rei, embala uma cena entre Cassandra e outra personagem.

A cidade onde a trama se passa não é nomeada, mas reproduz elementos de São Paulo. Viadutos, concreto, bares e bairros reconhecíveis ajudam a compor o cenário do segundo romance da autora. "

Eu meio que considero esse livro uma homenagem minha para São Paulo. Hoje moro no Rio, mas passei 14 anos em São Paulo e tenho muita intimidade e muito carinho pela cidade. "

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