Novos padrões cerebrais são identificados em pessoas autistas; entenda
Ler matéria →Brasil agora integra iniciativa global para melhorar tratamento do infarto Projeto visa padronizar e qualificar a assistência em casos de emergência cardíaca, com potencial para salvar milhares de vidas O infarto agudo do miocárdio continua sendo uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo.
Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que ocorram entre 300 mil e 400 mil casos de infarto por ano no Brasil. O Estado de São Paulo concentra a maior carga assistencial da doença no país, registrando mais de 40 mil internações anuais. Mas há uma boa notícia: nunca soubemos tanto sobre como salvar a vida de uma pessoa que está sofrendo um “ataque cardíaco”.
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O maior desafio, hoje, já não é apenas conhecer o tratamento correto, mas garantir que ele seja aplicado no menor tempo possível e de forma padronizada em todos os hospitais. Isso implica diretamente na mortalidade hospitalar dos pacientes com infarto, a qual varia muito conforme a qualidade do atendimento, oscilando entre menos de 5% em centros de excelência para mais de 20% em ambientes com limitações de recursos, atraso no atendimento ou ambos. Tempo é músculo: a chegada do Ghati ao Brasil
Na cardiologia existe uma frase que resume essa realidade: tempo é músculo. Isso significa que, a cada minuto de atraso no atendimento, uma parte do músculo do coração deixa de receber fluxo sanguíneo adequado e oxigênio e, por consequência, pode sofrer danos permanentes. Quanto mais cedo o fluxo de sangue é restabelecido, maiores são as chances de sobrevivência e menores as sequelas.
É justamente para enfrentar esse desafio que o estado de São Paulo passa a integrar a Global Heart Attack Treatment Initiative (Ghati), uma ação internacional criada pelo American College of Cardiology para melhorar a qualidade da assistência aos pacientes com infarto. A implantação será coordenada pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), ampliando o acesso das instituições de saúde brasileiras a um modelo internacional de melhoria contínua da qualidade assistencial. O que é o Stemi e por que a rapidez importa Leia também: 7 frutas brasileiras que protegem contra o envelhecimento, segundo novo estudo
O foco do programa é um tipo específico chamado infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST, conhecido pela sigla Stemi, em inglês. Apesar do nome complexo, trata-se de uma das formas mais graves de infarto. O diagnóstico é feito de forma simples, por meio do eletrocardiograma, exame capaz de identificar uma alteração característica chamada supradesnivelamento do segmento ST, que geralmente indica uma obstrução completa de uma artéria coronária.
Nesses casos, a rapidez no atendimento é decisiva. + Como funciona o programa
O Ghati não introduz um novo medicamento nem uma nova técnica de tratamento. Seu objetivo é organizar e qualificar a assistência. O programa acompanha indicadores de qualidade para verificar se cada paciente recebeu os cuidados recomendados pelas melhores evidências científicas, desde o primeiro contato com o sistema de saúde até a alta hospitalar.
Entre os indicadores monitorados estão a administração precoce dos medicamentos recomendados pelas diretrizes, como aspirina, estatinas e outras terapias comprovadamente capazes de reduzir complicações cardiovasculares. O programa também acompanha o tempo até a reperfusão da artéria obstruída. Quando a angioplastia primária está disponível, a meta é realizá-la em até 90 minutos após a chegada ao hospital com capacidade para o procedimento.
Quando esse prazo não pode ser cumprido, as diretrizes recomendam a administração imediata de um fibrinolítico, medicamento capaz de dissolver o trombo responsável pela obstrução da artéria, idealmente em até 30 minutos após a chegada ao hospital, desde que não haja contraindicações. Em todos os casos, o eletrocardiograma deve ser realizado o mais precocemente possível, preferencialmente nos primeiros 10 minutos após o primeiro contato com o serviço de saúde. Resultados da fase inicial do projeto-piloto Mais de saude
Outro aspecto importante é que o programa acompanha os resultados obtidos, como mortalidade hospitalar, ocorrência de complicações e taxa de sobrevivência. Dessa forma, cada hospital consegue identificar oportunidades de melhoria, aperfeiçoar seus processos e comparar seu desempenho com padrões internacionais de excelência. Os resultados da fase inicial do programa demonstraram o potencial dessa estratégia.
Entre 2019 e 2021, dezoito hospitais de diferentes países participaram do projeto-piloto, reunindo dados de aproximadamente quatro mil pacientes com Stemi. Cerca de 75% dos pacientes receberam reperfusão dentro do tempo recomendado, mais de 94% foram submetidos à terapia de reperfusão e a adesão às principais recomendações das diretrizes ultrapassou 90%. Esses avanços foram acompanhados por uma redução absoluta de aproximadamente 2 pontos percentuais na mortalidade hospitalar.
Embora um aumento de 2% na sobrevida possa parecer modesto à primeira vista, em saúde pública esse resultado representa centenas ou milhares de vidas preservadas quando aplicado em grandes populações. Além disso, pequenas melhorias em indicadores assistenciais costumam refletir mudanças estruturais importantes na organização dos serviços de saúde, criando uma cultura permanente de qualidade e segurança. Essa é justamente uma das maiores virtudes do Ghati. Leia também: Como a metformina, remédio mais usado no diabetes, pode derrubar seus níveis
Em vez de avaliar apenas o resultado final, ele permite compreender cada etapa do atendimento, identificar onde existem atrasos ou falhas e implementar melhorias contínuas. Não se trata de apontar erros, mas de construir processos mais eficientes para que todos os pacientes tenham acesso ao melhor cuidado possível. Os próximos passos: escalar o programa para mais hospitais
O próximo desafio é ainda mais ambicioso: levar esses resultados para um número muito maior de hospitais, representativos da prática clínica cotidiana. Em vez de restringir a estratégia a centros altamente selecionados e com grande experiência em melhoria da qualidade, o objetivo do Ghati é demonstrar que os mesmos princípios podem ser implementados em hospitais com diferentes perfis de infraestrutura, volume de pacientes e disponibilidade de recursos. Em outras palavras, busca-se escalar os benefícios observados na fase inicial do programa, reduzindo desigualdades na assistência e garantindo que um número cada vez maior de pacientes tenha acesso a um tratamento rápido, padronizado e baseado nas melhores evidências científicas.
Trata-se de uma estratégia de implementação em larga escala, com potencial para salvar milhares de vidas utilizando, de forma mais eficiente, terapias que já sabemos ser altamente eficazes. Uma cultura de qualidade para toda a rede de atendimento A chegada oficial do programa ao Brasil representa uma oportunidade importante para fortalecer a cultura de qualidade assistencial no tratamento do infarto.
Ao integrar hospitais, equipes multiprofissionais e indicadores de desempenho em uma mesma plataforma, será possível gerar novos conhecimentos, boas práticas e reduzir desigualdades na assistência. Nenhum profissional de saúde consegue mudar sozinho os números do infarto. Mas quando hospitais passam a medir seus resultados, comparar seu desempenho e aperfeiçoar continuamente seus processos, toda a rede de atendimento evolui.
E quem mais ganha com isso é o paciente. *Pedro Barros é cardiologista, coordenador do Projeto Infarto da Socesp e chair global do GHATI do American College of Cardiology.
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