Primeiras-damas deixam bastidores e disputam eleições ancoradas em clãs
Ler matéria →"O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo", escreveu Descartes —e acrescentou, com ironia, que nem mesmo as pessoas mais exigentes desejam ter mais do que já possuem.
Os mercados financeiros globais pareciam concordar com o filósofo durante as semanas muito tensas que antecederam o acordo entre Estados Unidos e Irã, assinado na quarta-feira (18): as Bolsas permaneciam próximas de níveis recordes, como se um desfecho razoável fosse inevitável. Mas confundir um desfecho favorável com a ausência de risco é um erro frequente —e desta vez chegamos perigosamente perto de aprender isso da pior maneira.
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O entendimento firmado prolonga por 60 dias o cessar-fogo e reabre o estreito de Hormuz, por onde transitavam, antes da guerra, 14% do consumo mundial de petróleo. Já na descrição do acordo identificam-se duas vulnerabilidades: trata-se de um MoU —memorando de entendimento—, não de um acordo formal; e não inclui Israel, de quem se exige, contudo, que suspenda os ataques no sul do Líbano. O próprio Trump, ao tuitar sobre o tema, foi explícito: "Não, não é definitivo, é apenas um MoU", escreveu, acrescentando que os ataques poderiam ser retomados.
Ainda assim, o anúncio representou um grande alívio. A perspectiva, caso o conflito se estendesse por mais algumas semanas, era assustadora: os estoques mundiais de petróleo já haviam se reduzido em 400 milhões de barris desde o início da crise e continuavam a cair ao ritmo de 6 milhões de barris por dia. Atingido um nível crítico, os preços subiriam a ponto de provocar uma recessão global. Não foi sem razão que o mesmo Trump saudou o acordo com a frase "Let the oil flow!". Leia também: Sucessão do Congresso e disputa eleitoral deixam Motta e Alcolumbre em lados
Não que os riscos fossem invisíveis a todos. Pouco antes do acordo, o termo "pânico" apareceu duas vezes na imprensa internacional: o New York Times citou a chefe de commodities de um grande banco americano —"um pânico silencioso vem se estabelecendo"— e o economista ganhador do Prêmio Nobel Paul Krugman admitiu "Sinto um certo pânico" ("I am in a bit of panic"). O mercado, porém, continuava impassível, ancorado na crença de que o bom senso sempre prevalece.
Os riscos, porém, não decorrem da falta de razões para buscar um acordo, mas da incapacidade dos contendores de reconhecê-las. Razões, as havia. O Irã, com sua economia fortemente abalada, precisava reestabelecer o fluxo de divisas de suas exportações de petróleo. Aos EUA, após declararem há cem dias que não haveria acordo com Teerã a não ser a "rendição incondicional", convinha agora admitir a existência do impasse e buscar uma saída que, se não pode ser chamada de "honrosa", possa ao menos ser vista como realista.
Durante as semanas que antecederam o acordo, diariamente a imprensa internacional trazia notícias sobre a evolução das negociações. Em um dia, estas caminhavam em direção a um acordo que parecia iminente; no dia seguinte, um dos lados —normalmente o Irã— negava que as discussões estivessem concluídas; no outro, consultavam-se as nações vizinhas; no outro ainda, ataques pontuais de lado a lado faziam retroceder os entendimentos. Às vezes eu tinha a sensação de estar lendo o jornal da semana passada e concordei quando alguém comparou a situação ao filme "O Dia da Marmota", em que uma mesma situação se repete indefinidamente.
Foi justamente essa situação de manchetes que se repetiam e acordos que pareciam iminentes e nunca chegavam, além da aparente confiança generalizada em um desfecho favorável, que me fez lembrar um episódio em que também apostei no bom senso, e errei: a Guerra das Malvinas, em 1982.
Como no caso presente, as negociações pareciam se arrastar. Reagindo à invasão argentina das Ilhas Falkland, uma grande força-tarefa naval britânica fez-se ao mar em 5 de abril, com 13 mil quilômetros pela frente. Todos os dias os jornais reportavam o avanço da frota —que, ao menos a meus olhos, não parecia ter pressa exagerada— ao lado das exaustivas tratativas diplomáticas, com seus avanços e recuos. Mais de politica
À época, eu era estagiário em um hedge fund em Paris e percebia, nas conversas com colegas e investidores, que havia poucas dúvidas de que o bom senso se imporia: a Argentina, ante a clara superioridade bélica do adversário, se retiraria das ilhas antes que a esquadra chegasse. Nos 27 dias entre a partida da frota de Portsmouth e o início do conflito armado, o mercado apostou nisso consistentemente.
Mas o bom senso não compareceu. Em 2 de maio os britânicos afundaram o cruzador argentino General Belgrano, dando início ao conflito que se estendeu até 14 de junho, quando a Argentina se rendeu. Morreram 649 militares argentinos, 255 britânicos e 3 ilhéus civis. O presidente argentino caiu três dias após a rendição. Leia também: Indecisos veem eleição sem entusiasmo e adiam escolha para depois de debates
No caso presente, ao menos por ora, o risco de um fechamento prolongado de Hormuz parece afastado. As projeções indicam que o preço do petróleo demorará a retroceder aos níveis pré-guerra; não apenas pela fragilidade do MoU mas pelo tempo necessário para a delicada remoção das minas nas águas do estreito. Ainda assim, a existência do acordo afasta o risco imediato de uma explosão de preços capaz de provocar uma recessão global.
Isso não me leva a pensar que as preocupações com o risco fossem infundadas. Ao contrário. E sugere uma reflexão final: o bom senso contempla, pondera e frequentemente adia. O pânico, com toda sua irracionalidade, possui uma virtude que o bom senso costuma dispensar: ele obriga a agir.
Uma pesquisa da agência Public First com 2.000 executivos em 18 países revelou que 80% deles consideram que a instabilidade geopolítica tornou mais urgente a substituição de energia fóssil por renovável. Se o susto das últimas semanas servir para acelerar a transição energética e reduzir a vulnerabilidade do mundo a um único estreito marítimo, talvez descubramos que o maior legado dessa crise não foi o frágil memorando que a encerrou, mas a sensação de urgência que ela provocou. Às vezes, um certo pânico faz mais pela prudência que uma excessiva confiança no império do bom senso.
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