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Bishkek, a moderna capital onde herança soviética é destruída

Published - Tempo de leitura: 9 min A capital do Quirguistão está no centro de um processo de apagamento de seu passado arquitetônico

Bishkek, a moderna capital onde herança soviética é destruída

- Published- Tempo de leitura: 9 min A capital do Quirguistão está no centro de um processo de apagamento de seu passado arquitetônico. Bishkek já perdeu vários grandes exemplos da arquitetura soviética, e outros monumentos também correm risco de destruição.

Nos locais demolidos, avança uma intensa construção comercial. Há alguns meses, o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, participou da inauguração de um projeto planejado para abrigar 60 mil moradores, com custo estimado em US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões). O local escolhido para a construção foi o terreno do antigo e lendário hipódromo soviético

Leia no AINotícia: Mundo em foco: panorama

Ak Kula. Dizia-se que aquele era o ponto de encontro entre a cidade e a estepe, entre a modernidade e as tradições nômades. Para alguns analistas, o Ak Kula simbolizava uma parte importante da identidade e da história do Quirguistão, pequena ex-república soviética localizada na Ásia Central.

Construído em 1947, o complexo estava abandonado até então. No início da década de 2020, perdeu o status de patrimônio histórico e acabou demolido para dar lugar a um novo projeto. Na prática, qualquer hipódromo ocupa uma vasta área urbana.

Os argumentos a favor de destinar esse espaço a usos considerados mais eficientes e rentáveis são relativamente simples de compreender. Mas a particularidade do novo complexo de Bishkek é que as estruturas únicas e reconhecíveis de Ak Kula, o conjunto de entrada, os edifícios administrativos e as arquibancadas, poderiam ter sido preservadas e integradas ao projeto como parte da história urbana e nacional. E esse não é um caso isolado. Leia também: O que aconteceu com país que prometeu R$ 170 mil para quem tivesse dois filhos

Nos últimos cinco anos, Bishkek perdeu ao menos nove edifícios históricos importantes, segundo estimativas de jornalistas e urbanistas. A maior parte das construções demolidas seguia o estilo arquitetônico conhecido como "classicismo soviético" ou "arquitetura stalinista", em referência a Joseph Stalin (1878-1953), que governou a antiga União Soviética. "

Como seria a cidade sem esses edifícios? ", questiona a premiada artista quirguiz Gulnara Musabai, de 71 anos. "

Agora, vão derrubá-los e construir aqueles prédios todos iguais. Mais uma caixa de concreto armado e pronto", afirma Musabai. Cidade 'descartável'

A gráfica Erkin-Too, construída em 1931 e responsável pela publicação do primeiro jornal do Quirguistão, está entre os edifícios demolidos. Em 2015, a gráfica perdeu o status de patrimônio histórico. O Ministério da Cultura do país afirmou que o prédio havia perdido seu valor arquitetônico, urbanístico e histórico-cultural e que não poderia ser restaurado.

Também foi demolido o edifício da Escola de Música Kurenkeev, a mais antiga do país, construída em 1939 e única instituição responsável pela formação de músicos profissionais. Três monumentos icônicos também desapareceram, sem que houvesse uma justificativa clara para sua remoção. Entre eles estavam o mosaico " Mais de mundo

Recepção de Convidados", uma das fontes mais antigas de Bishkek no parque Oak, e o baixo-relevo na fachada do Teatro Dramático Russo Aitmatov. A professora de arquitetura Aigul Nasirdinova afirma que esse tipo de tratamento dado aos edifícios históricos transforma Bishkek em uma "cidade descartável", que perde gradualmente a sua diversidade cultural.

" Cidades que se valorizam não destroem seus marcos arquitetônicos", diz Nasirdinova. Segundo a professora, essas construções "se acumulam como um capital que gerará retorno no futuro".

O arquiteto e especialista em planejamento urbano estratégico Aibek Sydykov concorda: " Falta compreender que uma identidade preservada é um ativo de longo prazo, capaz de trazer para a cidade, no futuro, muito mais benefícios por meio do turismo e da qualidade de vida do que uma expansão acelerada da construção civil". " Leia também: As extraordinárias pessoas resistentes ao HIV

Precisamos deixar de tratar edifícios antigos como 'ruínas' ou um 'obstáculo ao progresso'. Na prática internacional, são construções emblemáticas que ajudam a criar a identidade de um lugar", acrescenta Sydykov. A história perde espaço para os negócios

A Lei de Proteção aos Monumentos do Quirguistão estabelece que um bem tombado adquire esse status de forma permanente. No entanto, o artigo 36 dessa lei prevê que a demolição e a reconstrução de patrimônios histórico-culturais podem ser autorizadas pelo governo "em caso de destruição repentina do monumento em consequência de desastre natural e diante do risco de perda de seu valor histórico, científico, artístico ou de outra natureza"

. É justamente essa brecha legal que o governo e as comissões especiais do segmento utilizam para retirar de edifícios o status de patrimônio arquitetônico ou histórico. Segundo Nasirdinova, as empresas da construção civil costumam ser as principais beneficiadas pela demolição de edifícios históricos.

Muitos desses imóveis ficam na região central de Bishkek, uma área densamente urbanizada e com alguns dos metros quadrados mais caros da cidade. "[Geralmente], os monumentos arquitetônicos pertencem ao Estado e não podem ser privatizados. Eles ficam na parte central da cidade e ocupam grandes áreas", explica Nasirdinova.

Mas, se um monumento desaba e é considerado irrecuperável, o terreno pode receber qualquer tipo de empreendimento. " Os monumentos arquitetônicos acabam perdendo para os interesses empresariais", afirma Nasirdinova.

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