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Crédito, Divulgação/ Hypera Pharma
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Published Há 3 horas
- Tempo de leitura: 10 min
Há 25 anos o governo federal do Brasil proibiu que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite contivessem álcool em sua fórmula. A medida obrigou um dos mais tradicionais produtos brasileiros, o Biotônico Fontoura, a mudar sua fórmula.
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Criado em 1910, o popular fortificante que, ao longo do século passado, se tornou quase onipresente nos lares do país, continha 9,5% de etanol em sua composição. Em média, essa é a graduação alcoólica de um vinho espumante. Uma cerveja comum no Brasil costuma ter a metade desse índice.
Mas a história do Biotônico Fontoura vai muito além dessa peculiaridade etílica. É uma trajetória centenária, que mescla elementos culturais, sabedoria popular e acompanhou, de certa forma, a evolução da saúde pública no Brasil.
Tudo começou em 1910, no interior paulista. Um farmacêutico chamado Cândido Fontoura Silveira (1885-1974) resolveu inventar uma fórmula para ajudar sua mulher, Elvira Siqueira de Castro, que tinha queixas constantes de fraqueza. Ele desenvolveu um produto com fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol. Aparentemente, deu certo. Leia também: Anúncios do Instagram promovem material com abuso sexual infantil na Índia
"A maioria dos medicamentos dessa época era manipulada de forma artesanal pelos farmacêuticos, chamados de boticários, nas suas próprias boticas ou em pequenos laboratórios", contextualiza o farmacêutico Eder de Carvalho Pincinato, professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ele conta que os profissionais moíam ervas e minerais, destilavam plantas e preparavam unguentos e fórmulas magistrais ou oficinais. Tudo com o "intuito de acabar com os 'males' mais comuns da população".
Além do Fontoura, também marcaram época produtos como o Elixir de Nogueira, que era feito à base de nogueira e outras plantas medicinais, a Emulsão Scott, feita a partir de óleo de fígado de bacalhau, a pomada Minâncora, que contém zinco e cânfora, entre outros.
Frascos improvisados e sem rótulo
Segundo informações da empresa farmacêutica Hypera Pharma, dona da marca desde 2007, Fontoura passou a comercializar o fortificante em seu estabelecimento e, aos poucos, médicos da região de Bragança Paulista começaram a prescrevê-lo a seus pacientes.
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"Eram quase como garrafadas, derivados de plantas fitoterápicas em forma de elixires e tônicos, que representavam a indústria farmacêutica daquele período", define o médico e nutrólogo José Roberto da Costa Pereira— detentor de mais de 30 patentes e com um histórico de participações no desenvolvimento de produtos farmacêuticos. "O fato de depois ter sido direcionado às crianças, mesmo contendo álcool, ocorre porque, naquela época, não havia o entendimento atual. Acreditava-se que, em algumas situações, isso era benéfico e estimulava o apetite das crianças."
Ainda não havia rótulo nem nome para o preparado. Em 1916, Fontoura aproximou-se do escritor e fazendeiro Monteiro Lobato (1882-1948). Na época, ambos eram colaboradores do jornal O Estado de S. Paulo. O escritor teria se queixado ao farmacêutico de cansaço e fadiga. Este prontamente providenciou a ele o fortificante. Leia também: Os adolescentes que ensaiavam para formatura quando ocorreram os terremotos
Fascinado com o resultado, Lobato passou a ser um entusiasta divulgador do produto. Teria sido dele a ideia do nome: Biotônico, o "tônico da vida", e Fontoura, sobrenome pelo qual o farmacêutico era conhecido.
A essa altura, já havia autorização do Serviço Sanitário do Estado e o fortificante podia ser vendido em todas as praças paulistas. Segundo a Hypera Pharma, ainda reinava o improviso: os frascos não eram padronizados e os rótulos, desenhados à mão por um auxiliar da farmácia.
"Em uma das idas de Cândido Fontoura a São Paulo, levou um frasco e o desenho original dos rótulos à Litografia Ipiranga, pioneira na impressão gráfica em cores na América do Sul. Um mês depois, chegavam a Bragança os rótulos verdes litografados que foram a cara da marca por quase um século: uma trama de floreios em estilo art nouveau enlaçando o nome do produto e, embaixo, em letras maiúsculas, a descrição de suas propriedades", relata a assessoria de imprensa da detentora da marca.
A descrição funcionava quase como um slogan em si. Dizia assim: "Regenera o sangue, tonifica os músculos, fortalece os nervos".
Desnutrição e verminoses
"Tornou-se um marco da indústria nacional", pontua Pereira. "Surgiu no início do século passado, quando a indústria era basicamente baseada em ervas e produtos fitoterápicos, com poucas drogas de síntese disponíveis. Naquela época, quase tudo eram tônicos e elixires."

Jeca Tatuzinho

Com ovos de pata e leite condensado

Sem álcool
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