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Biografia lembra luta de Fernando Gasparian contra censura

Naief Haddad Um Homem Chamado Opinião Preço R$ 80 (e-book: R$ 60) Autoria Márcio Pinheiro Editora L&PM (268 págs.) A certa altura do filme "Ainda Estou Aqui"

Biografia lembra luta de Fernando Gasparian contra censura
Naief Haddad

Um Homem Chamado Opinião

  • Preço R$ 80 (e-book: R$ 60)
  • Autoria Márcio Pinheiro
  • Editora L&PM (268 págs.)

A certa altura do filme "Ainda Estou Aqui", Rubens Paiva (Selton Mello) é aconselhado por Fernando Gasparian (Charles Fricks), um dos seus melhores amigos, a deixar o Brasil.

Preocupado com o aumento da repressão depois do AI-5, o empresário havia decidido se mudar para a Inglaterra e tentava convencer Paiva a tomar o mesmo rumo. Mas, como se sabe, o ex-deputado preferiu ficar no Brasil e foi morto pelos órgãos de segurança.

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Embora curta, a cena do filme dirigido por Walter Salles desperta a vontade de saber mais sobre Gasparian, figura central na resistência à ditadura militar. Essa imersão pode ser feita agora, com o lançamento de "Um Homem Chamado Opinião", biografia assinada por Márcio Pinheiro.

O empresário e editor Fernando Gasparian em registro de 1997, com um exemplar do jornal Opinião - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

No livro, o autor gaúcho reencontra a história recente do jornalismo brasileiro e o autoritarismo que sufoca a imprensa, temas presentes em publicações suas como "Rato de Redação: Sig e a História do Pasquim" (2022).

Gasparian formou-se em engenharia no Mackenzie e se tornou um líder empresarial no setor de fiação e tecelagem. Mais adiante, ao trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro, passou a comandar a América Fabril, a maior empresa têxtil do país. Leia também: Biografia lembra luta de Fernando Gasparian contra censura

A ditadura freou a ascensão do empresário, especialmente a partir de 1967, quando Delfim Netto assumiu a pasta da Fazenda. Ruy Solberg, advogado que trabalhou na América Fabril, indica na biografia as ações do ministro para prejudicar Gasparian.

Em debate na Folha sobre os dez anos da Constituição, em 1998, a então procuradora do estado de Minas Gerais Cármen Lúcia, hoje ministra do STF; o ex-deputado constituinte Fernando Gasparian; o então editorialista da Folha Demian Fiocca, mais tarde presidente do BNDES; e o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda - Evelson de Freitas/Folhapress

O empresário decidiu, então, se afastar da companhia e se mudar com a família para Londres, onde passou a dar aulas. Os Gasparian voltaram ao Brasil em 1972, momento-chave porque as principais passagens da biografia acontecem a partir daí. É a fase de Gasparian como editor.

"Sem a porra-louquice do Pasquim e sem o ranço esquerdista e sectário de muitos outros semanários alternativos da época, o Opinião era um jornal sóbrio como Fernando Gasparian, seu dono. Afrontava a ditadura de maneira séria e incisiva, sem fazer deboches ou ironias", escreve Pinheiro sobre o jornal lançado em novembro de 1972.

Contratou como editor-chefe Raimundo Rodrigues Pereira, que tinha passagens por Veja e Realidade. Ambos montaram uma equipe com jornalistas notáveis, como Paulo Francis, Sérgio Augusto e Tárik de Souza. Próximo de intelectuais, Gasparian contou com a colaboração frequente de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Otto Maria Carpeaux, entre dezenas de outros.

Nos primeiros meses, as restrições impostas pelo governo foram pontuais. Em abril de 1973, porém, a situação se agravou quando o semanário abordou a morte de Alexandre Vannucchi Leme. Os textos foram pouco além da versão oficial, que citava atropelamento quando, na verdade, o estudante tinha sido assassinado. Mais de politica

Ainda assim, a iniciativa do jornal foi vista como insubordinação –naquele caso, ditavam os militares, o Opinião deveria ter se calado. A partir desse episódio, todos os textos deveriam ser avaliados pela Polícia Federal antes que fossem enviados para a gráfica.

A censura crescia, a indignação do editor também. Tentou escapar dos cortes das mais diferentes formas, de um apelo ao STF à denúncia na imprensa estrangeira. Pouco adiantou. Quando Vladimir Herzog, que havia trabalhado no Opinião, foi morto no DOI-Codi, o jornal foi proibido de mencionar o fato. Mesmo a versão oficial estava vetada.

Depois de quatro anos e meio, levar o semanário adiante havia se tornado inviável. Das mais de 10.500 páginas escritas pelos colaboradores, apenas 5.796 chegaram aos leitores, pouco mais de 50%, indica o biógrafo. Leia também: Sindicato dos Bandidos de São Paulo vai protestar contra concorrência desleal

Um ano depois de lançar o Opinião, Gasparian levou às bancas a revista Argumento, projeto com requinte editorial e gráfico. Com direção de Barbosa Lima Sobrinho, reunia, sobretudo, contribuições de intelectuais.

No segundo número, porém, a PF começou a recolher os exemplares. Como lembra o biógrafo, FHC e Antonio Candido, colaboradores da Argumento, apelaram a ministros do regime para que a revista sobrevivesse. Em vão, durou apenas quatro números.

Em meio às dificuldades do Opinião e da Argumento, Gasparian investiu em outro projeto, a editora Paz e Terra, que publicou autores como Paulo Freire e Eric Hobsbawm. "As Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, foi seu principal best-seller.

Em 1978, Gasparian e sua mulher, Dalva, abriram a livraria Argumento em São Paulo. Um ano depois, nasceu a unidade carioca, que existe até hoje.

Nas décadas seguintes, ele se envolveu na campanha pelas Diretas, foi eleito deputado constituinte pelo PMDB e apoiou a candidatura do amigo FHC à Presidência. Morreu em 2006, aos 76 anos, em decorrência de uma infecção generalizada seguida de parada cardíaca.

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