← Entretenimento
1 pessoa lendo agora Entretenimento

Biografia de Guimarães Rosa sai em busca do homem que abriu o sertão aos

Em uma novela atemporal do livro "Corpo de Baile", que acaba de completar 70 anos, o menino Miguilim redescobre o mundo à sua volta depois de ganhar um par de

Biografia de Guimarães Rosa sai em busca do homem que abriu o sertão aos brasileiros

Em uma novela atemporal do livro "Corpo de Baile", que acaba de completar 70 anos, o menino Miguilim redescobre o mundo à sua volta depois de ganhar um par de óculos. " Olhou para todos, com tanta força.

Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal. "

Viu, enfim, como sua terra era bonita. " Agora ele sabia.

" É simbólico que o personagem que João Guimarães Rosa tenha dito ser o mais parecido com ele mesmo —um alter ego distante e fantasiado— seja essa criança. Mas é como o mineiro escreveu em "Tutameia", o último livro que publicou em vida:

" Tudo, para mim, é viagem de volta". Essa viagem, agora, pode ser lida de cabo a rabo em um novo livro do capixaba Leonencio Nossa, jornalista premiado e biógrafo experimentado, que já enfrentou outro mastodonte brasileiro, Roberto Marinho, em uma trilogia ainda em produção. Leia também: nathalia dill quem ama cuida: o detalhe que mais repercutiu

Dessa vez o trabalho foi imenso como o Liso do Sussuarão —foram quase 20 anos de pesquisa por todo canto, de acervos do Itamaraty a uma coleção de quase 2.000 cartas, costuradas de jeito tão fluido que o texto chega perto de ser narrado pelo próprio Rosa. Quem lê a biografia se depara com um homem que sempre pôs a literatura antes de tudo —que se formou médico, mas odiava ver sangue, que passou no curso de diplomata, mas nos ambientes mais grã-finos escrevia sentir falta de almoçar "quiabo e frango, mandioca, couve, tutu, torresmo, carne de porco, guaraná, doce feito em tacho de cobre". Nascido em 1908 em Cordisburgo, vila mineira cujo nome mistura o radical grego para "coração" e o germânico para "cidade", o escritor fazia questão de planejar longas viagens por Minas e Mato Grosso do Sul ao lado de vaqueiros que lembrariam futuras criações suas como Riobaldo e Manuelzão.

" Quando eu saio montado num cavalo, por minha Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada", disse, em rara entrevista.

Imagem do artigo

" Não há nada igual neste mundo. Não quero palavra, mas coisa, movimento, voo.

" Depurou dessas experiências —misturadas com suas leituras dos clássicos e com a maneira de contar causos de seu pai, seu Florduardo— um estilo literário diferente de tudo o que se fez antes ou depois dele. Culminou na prosa de "Sagarana", " Primeiras Estórias" e "

Grande Sertão: Veredas", seu único romance, outro rebento que daqui a alguns meses faz aniversário de 70 anos. Nas páginas da biografia, surge um escritor cortês, elegante e vaidoso, um mulherengo cordial que não recusava um bom adultério. Sempre teve certeza de que seu talento o elevaria ao mais alto patamar da literatura brasileira. Mais de entretenimento

Jamais destratava ninguém, mas desdenhou, no ardor da juventude, de alguns dos principais escritores da língua portuguesa. " Não pretendo ler mais Machado de Assis, a não ser nos seus afamados contos", escreveu aos 31 anos.

" Lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura. " Leia também: Panorama do Entretenimento: Amazon e Eventos Culturais

Para marcar posição nessa mesma época, disse que uma certa literatura "calhorda" e "simplista" reinava então no país "para a glória dos jorgeamados etc." —referência à geração de autores que despontou com o romance social na década de 1930. Guardou por anos tristeza por um júri encabeçado por Graciliano Ramos não o ter premiado em um concurso. Já Mário de Andrade, segundo ele, tinha uma rica pesquisa sobre o vocabulário brasileiro, mas era pobre no trabalho de linguagem.

" Mário não passava a limpo a língua do povo", disse Rosa ao diplomata Francisco Alvim. Esse traço rebelde destoava de um escritor educado, sempre composto de terno, gravata-borboleta e os óculos de Miguilim —mas também apareceu em outro ponto-chave de sua trajetória.

Imagem do artigo

Enquanto trabalhavam no consulado brasileiro em Hamburgo, em 1938, ele e a esposa Aracy de Carvalho foram instrumentais para que diversas pessoas judias escapassem da Alemanha por baixo dos panos. Sua ousadia no cargo de cônsul era tamanha que o diretor da polícia secreta de Hitler escreveu num relatório que "João Guimarães Rosa deve ser considerado um adversário". Mesmo com tanta vida, o mineiro sempre relutou em ser biografado.

" Vivo no infinito; o momento não conta", disse ao crítico alemão Günter Lorenz em 1965.

Mas Leonencio Nossa é teimoso. Seu livro de 736 páginas exigiu empenho de publicação de duas editoras, Nova Fronteira e Topbooks, em um volume que inclui linha do tempo, árvore genealógica e farto caderno de imagens. "

Eu acreditava que, apresentando isso, preenchia uma lacuna", diz o biógrafo. " Porque é uma obra que foi capturada pelos estudiosos.

nathalia dill quem ama cuida: o detalhe que mais repercutiu
Entretenimento

nathalia dill quem ama cuida: o detalhe que mais repercutiu

Ler matéria →

Leia também