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Bets endividadas deixam rastro de calotes de R$ 100 mi e recorrem a fusões

Teixeira São Paulo O país começa a presenciar os primeiros casos de sites de apostas endividados

Bets endividadas deixam rastro de calotes de R$ 100 mi e recorrem a fusões para
Pedro S. Teixeira
São Paulo

O país começa a presenciar os primeiros casos de sites de apostas endividados. No pior cenário, a derrocada de uma bet deixa uma trilha de calotes em clubes de futebol e na União, em razão de problemas de gestão e da intensa concorrência.

O rompimento de contratos de patrocínio é um sinal dos problemas de caixa, diz o presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), Plínio Lemos. O outro é a venda para empresas maiores, para dar seguimento a um negócio que ficou inviável.

Leia no AINotícia: Economia: PIB, finanças a dois e reviravoltas empresariais

Os episódios ainda são pontuais frente a um mercado com 187 marcas regulares. A reportagem localizou uma empresa com cobranças na Justiça próximas a R$ 100 milhões, além de dois casos em que marcas menores foram engolidas por grupos consolidados do mercado.

Jogador do Internacional com camisa vermelha e calção branco chuta a bola durante cobrança de pênalti. Jogadores do Vasco da Gama, com uniformes preto e branco, aguardam atrás da linha da bola. Estádio com arquibancada vermelha ao fundo.
Jogador do Internacional Johan Carbonero vestindo camiseta com patrocínio master da Alfa Bet, em outubro de 2025 - Diego Vara/Reuters

Manter depósitos em uma bet endividada envolve riscos, uma vez que o setor não conta com um mecanismo equivalente ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) dos bancos.

A regulação tenta diminuir os riscos, com regras de separação de valores dos apostadores e um depósito de segurança de R$ 5 milhões para cumprimento de obrigações financeiras. Caso tudo esteja adequado, o apostador não se torna um credor, segundo o advogado especializado em direito regulatório Sérgio Alves. Leia também: Yamal supera Messi e entra no Top 10 dos mais jovens a marcar gols em Copas

"No caso das bets licenciadas, os valores das apostas não são ativos das casas e, por isso, não são considerados para fins de falência ou recuperação judicial", afirma Alves. "Ainda precisamos ver um caso concreto para entender melhor como será a separação de ativos e as bases da bet".

O caso mais grave identificado pela reportagem é o da Alfa Bet, empresa paulista com cerca de 0,1% do mercado, segundo dados da consultoria H2 Gambling Capital.

Após deixar de pagar contratos de patrocínio com Grêmio e Internacional em 2025, acumulou cobranças judiciais próximas de R$ 90 milhões. Em abril, chegou a firmar acordo para quitar parte da dívida com o Grêmio, mas não efetuou os pagamentos previstos, conforme a Folha apurou.

O fundador e diretor operacional da empresa, Matheus Antunes, confirmou que a empresa enfrenta dificuldades e procura um comprador para se manter na ativa.

"Estamos conduzindo negociações visando a transferência da operação para um novo grupo investidor, com o objetivo de assegurar a continuidade da atividade e a adequada composição das obrigações perante credores", disse. Mais de economia

Em processos judiciais, a empresa alegou dificuldades financeiras decorrentes dos custos da regulamentação, incluindo a licença de operação de R$ 30 milhões e as novas exigências tributárias.

O modelo de negócios das bets é altamente terceirizado, com contratação de instituições de pagamentos, catálogos de apostas e de listas de eventos esportivos —a empresa em si responde pelo marketing e pelo comercial.

Procurados, os times disseram que só se pronunciariam nos autos. Além dos clubes, o grupo de mídia gaúcho RBS cobra judicialmente cerca de R$ 200 mil por campanhas publicitárias não pagas. À Folha a empresa disse que ainda aguarda o pagamento e a conclusão da disputa. Leia também: Janela de IPOs também atrai pesadelos

"A empresa não consegue fechar a conta, considerando os 12% do governo, todos os impostos normais, a folha de pagamento e a necessidade de continuar crescendo", disse.

O Cade recebeu até agora três notificações de atos de concentração envolvendo bets licenciadas pelo Ministério da Fazenda, a primeira quando a multinacional Flutter (controladora da Betfair) desembolsou R$ 3,8 bilhões por 56% da pernambucana Betnacional.

A segunda fusão anunciada está ligada à sobrevivência de marcas menores em um mercado concentrado —dez empresas detêm mais de 67% de participação. A dona dos sites de apostas 7K e Cassino Bet anunciou, em 25 de março, a compra das concorrentes Donald Bet e Bet Ponto Bet. O órgão concorrencial chancelou a operação em 6 de abril.

A compradora é o grupo RNGX, dono da empresa de tecnologia Cactus Tecnologia e da Ana Gaming, que controla a Bet7K, patrocinadora do Santos até 2025. As companhias nunca anunciaram o valor da transação, mas o CEO da Ana Gaming, Marco Tulio Oliveira, disse à Folha que a compra foi feita com dinheiro em caixa, sem intermediação de um banco.

Segundo o executivo, a incorporação visa cortar custos operacionais. "Já temos uma estrutura de compliance, investimentos e setor financeiro. Quando fazemos a aquisição, ganhamos sinergia", afirmou.

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