Bloomberg — Nas reuniões semanais de coordenação entre os principais auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o código de conduta é claro: fique calado se não for defender estímulos. O presidente retomou essas reuniões a portas fechadas no Palácio do Planalto pela primeira vez desde o mandato anterior, mas com uma diferença: agora elas estão focadas em vencer a eleição de outubro.
Os encontros começam com uma revisão de pesquisas internas, que então avançam para debates intensos sobre maneiras de impulsionar a popularidade de Lula — muitas vezes por meio de novas medidas de auxílio —, enquanto preocupações com os custos de longo prazo ficam em segundo plano. Governos frequentemente aumentam os gastos em anos eleitorais, mas o Brasil se destaca pela eficácia com que sua máquina de estímulos está impulsionando o crescimento, apesar de algumas das taxas de juros reais mais altas do mundo. Lula tenta conter um grande desafio que vem da candidatura do senador Flávio Bolsonaro.
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Nesse processo, o presidente de 80 anos vem dificultando os esforços do Banco Central para controlar a inflação, além de deixar sem solução um dos maiores déficits fiscais do mundo. Após ficar praticamente estagnada no segundo semestre de 2025 sob uma taxa básica de juros de 15%, a economia brasileira cresceu cerca de 1% no primeiro trimestre em relação aos três meses anteriores, segundo o nowcast do PIB brasileiro da Bloomberg Economics. Dados preliminares apontam para crescimento semelhante no período de abril a junho, embora essa estimativa esteja sujeita à volatilidade conforme novos dados forem incorporados.
O nowcast é um modelo estatístico que incorpora indicadores de alta frequência à medida que são divulgados para antecipar o crescimento trimestral da economia. O IBGE publicará os dados oficiais do PIB do primeiro trimestre em 29 de maio. O que diz a Bloomberg Economics “
O crescimento fraco no segundo semestre de 2025 parecia evidência clara de que a política monetária ultracontracionista estava surtindo efeito. O início de 2026 virou essa narrativa de cabeça para baixo. Isso é impressionante. Leia também: Por que a eleição deste domingo é decisiva para a esquerda na Colômbia — e o
A economia ainda deveria estar sentindo os efeitos defasados e cumulativos do aperto monetário mais forte e prolongado em duas décadas. O apoio fiscal — uma faixa maior de isenção do imposto de renda e subsídios aos combustíveis — ajuda a explicar essa força. ”
Adriana Dupita, economista para Brasil Neste mês, o governo eliminou um imposto impopular sobre importações de pequeno valor, a chamada Taxa das Blusinhas, após pesquisas internas mostrarem que a medida prejudicava a popularidade de Lula, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto que falou com a Bloomberg News. Autoridades receberam um alerta urgente do presidente da Câmara, Hugo Motta, de que enfrentariam uma derrota humilhante porque o Congresso planejava derrubar o tributo de qualquer forma.
A corrida por estímulos também incluiu cortes de impostos sobre combustíveis, subsídios para eletricidade e gás de cozinha para os mais pobres e um programa para ajudar famílias a renegociar bilhões em dívidas, o Desenrola. O governo também ofereceu empréstimos com juros baixos para caminhoneiros comprarem veículos novos e lançou plano semelhante para taxistas. Juntas, as medidas acrescentarão até 1,4 ponto percentual ao crescimento do PIB neste ano, segundo a XP.
Para efeito de comparação, a pesquisa Focus prevê expansão de 1,89% da economia em 2026. Os sinais de resiliência econômica se acumulam diariamente. Só neste mês, dados oficiais mostraram que vendas no varejo e produção industrial em março superaram as expectativas dos analistas.
A criação de empregos formais também disparou no mesmo período. Estímulo ao consumo Nas reuniões semanais de coordenação política, que incluem participantes do Ministério da Fazenda e das áreas de relações institucionais, comunicação e Casa Civil, alguns membros da equipe econômica expressaram preocupações. Mais de noticia
Uma preocupação persistente é que oferecer mais crédito possa comprometer os próprios esforços do governo para reduzir o endividamento das famílias. Essas dívidas atingiram níveis recordes e são vistas por alguns auxiliares como um fator por trás da queda de popularidade do presidente, disse uma pessoa com conhecimento do assunto à Bloomberg News. A resposta do núcleo próximo de Lula foi rápida: os programas de crédito teriam boa acolhida entre os eleitores e, portanto, deveriam seguir adiante, segundo a pessoa, que pediu anonimato para discutir essas conversas.
O embate destaca um dilema que está emergindo como característica central da estratégia de Lula. Com aprovação abaixo de 50%, aliados dizem que a prioridade é conquistar a população mantendo a economia aquecida. “Há uma visão dentro do governo de que crescimento exige estímulo fiscal e expansão do crédito”, disse Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público da Fundação Getulio Vargas.
Para Lula, tudo isso faz parte do plano. “Nós queremos que a partir de agora, juntos, vocês e o governo, tratem de cuidar dessa dívida com muito carinho para que vocês possam continuar consumindo, para que vocês possam continuar comprando aquilo que vocês quiserem”, disse ele no início de maio ao detalhar o Desenrola. ‘ Leia também: Ao ouvir irmão falar sobre Henry, Monique chora no sexto dia de julgamento
Dinâmica perversa’ Ainda assim, os gastos dificultam para o Banco Central reduzir os juros, atualmente em elevados 14,5% — taxa que em termos reais só perde para a da Turquia entre as principais economias do mundo, segundo a Bloomberg Economics. Tanto a inflação corrente quanto as expectativas de inflação no Brasil já estão acima da meta de 3% e seguem em alta.
Quando o BC reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual no mês passado, apenas o segundo corte do ciclo, indicaram que novos afrouxamentos dependeriam dos dados econômicos, mensagem interpretada por analistas como sinal de um ciclo mais curto. Essa postura diferencia o Brasil de países da região como Chile e México, que reduziram seus custos de financiamento em 675 e 475 pontos-base, respectivamente, desde os picos pós-pandemia. “
Há uma dinâmica perversa por trás dessa situação”, disse o economista-chefe da XP, Caio Megale, observando que juros persistentemente elevados aumentam as chances de ainda mais auxílio governamental no futuro. “ Um problema alimenta o outro.
” Isso também agrava uma crescente crise de endividamento corporativo em empresas que sofrem sob o peso de juros de dois dígitos. A Kora Saúde entrou recentemente com pedido de reestruturação extrajudicial, juntando-se a empresas como Raízen e GPA.
Outras, incluindo Alliança Saúde e Oncoclínicas, buscaram proteção judicial. “Há um descompasso entre política fiscal e monetária que provavelmente persistirá ao longo do ano, especialmente em um contexto eleitoral”, disse Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e hoje sócio da consultoria Tendências. “
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