Mundo: Panorama com política, narcotráfico e protestos
Ler matéria →As mulheres vítimas de violência doméstica que mataram seus companheiros: 'Ele disse que ia me matar, matar meu filho e depois se matar'

Crédito, Getty Images
- Author, Mariana Rosetti e Paola Churchill
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
- Published Há 2 horas
- Tempo de leitura: 16 min
Em uma fração de segundo, a auxiliar de cozinha Milene Otani Vasconcellos Alves, de 38 anos, calculou suas chances.
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Rafael já havia tentado enforcá-la, jogado-a no sofá e ignorado seus pedidos para cessar a violência que só escalava, relatou ela à polícia.
Milene disse que olhou para a cozinha e viu uma faca. "Se você me bater mais alguma vez, eu vou pegar qualquer coisa para me defender", alertou, conforme registrado no inquérito policial.
Ele não parou. Milene desferiu um único golpe fatal contra Rafael, em 2024. O casal morava em Santo André (SP). Leia também: Mundo: Panorama com política, narcotráfico e protestos
Foi também na cozinha que, a cerca de 400 quilômetros dali, em Nova Iguaçu (RJ), Úrsula Ricardo Francisco matou em 2008 o então marido, um policial militar, com um único tiro na região da cabeça.
Vítima de violência doméstica, Úrsula, que tem hoje 55 anos e é assistente social, conta que tomou a decisão após ouvi-lo dizer: "Vou matar você, meu filho e vou me suicidar".
Milene e Úrsula alegam ter reagido em legítima defesa após anos sofrendo violência.
Milene é alvo de um inquérito que está sob avaliação do Ministério Público e eventualmente pode ser tornar, ou não, um processo judicial— a depender da decisão do órgão.
Já Úrsula foi absolvida na Justiça após quase uma década aguardando julgamento. Mais de mundo
O recurso jurídico da legítima defesa exclui a ilicitude do crime e reconhece que, diante de risco iminente à vida, a reação foi proporcional à ameaça.
Mas provar isso nem sempre é simples, dizem especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, e o reconhecimento de que houve legítima defesa depende de fatores que vão desde a qualidade de advogados e da investigação policial, até o peso do machismo no julgamento.
'Eu achava que podia salvar ele de algum jeito'
Milene relatou à polícia que ela e Rafael se conheceram pelo Facebook em 2017, mas a conversa durou pouco, já que ele foi preso semanas depois.
Ainda segundo a versão dela, eles retomaram o contato em setembro de 2023 quando, recém-saído da prisão e em situação de rua, ele a procurou. Para Milene, foi uma chance de recomeçar.
"Eu achava que podia salvar ele de algum jeito", diz a auxiliar de cozinha à reportagem.
Foram morar juntos no início de 2024. A primeira agressão aconteceu em uma tarde, quando Milene chegou do trabalho e o encontrou usando drogas.
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