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As guerras na Ucrânia e no Irã são parte de uma mesma guerra mundial, diz

Crédito, Getty Images Legenda da foto, Ataques no Irã começaram em fevereiro e já deixaram mais de 3 milhões de deslocados Article Information Author, João Caminoto

As guerras na Ucrânia e no Irã são parte de uma mesma guerra mundial, diz
Três mulheres sentadas em uma casa que foi bombardeada no Irã

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Ataques no Irã começaram em fevereiro e já deixaram mais de 3 milhões de deslocados
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    • Author, João Caminoto
    • Role, De Paris para a BBC News Brasil
  • Há 1 hora
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Desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em fevereiro, o mundo assiste a um fenômeno que muitos analistas ainda relutam em nomear: uma guerra mundial.

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Não nos moldes da devastação dos dois conflitos do século 20, mas com os ingredientes que historicamente definem o conceito — dois grandes conflitos simultâneos em continentes diferentes, grandes potências envolvidas diretamente em ambos, e cada uma delas apoiando o adversário da outra no conflito oposto.

É essa a tese de Paul Poast, professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago.

Poast argumenta que as guerras na Ucrânia e no Irã deixaram de ser conflitos paralelos para se tornar eventos interligados de uma disputa global entre grandes potências — com consequências econômicas que já se fazem sentir em todo o mundo, do preço da gasolina ao custo dos alimentos. Leia também: Trump diz que Lula é 'cara inteligente' após encontro

Autor de quatro livros sobre segurança internacional e fellow não residente do Chicago Council on Global Affairs, Poast também entrou no debate sobre a teoria da guerra justa, após o vice-presidente americano, J.D. Vance, justificar a guerra no Irã invocando essa tradição teológica — e ser rebatido pelo próprio papa Leão 14.

Na entrevista a seguir à BBC News Brasil, Poast fala sobre o que define uma guerra mundial, os riscos de uma escalada global e por que, na sua avaliação, a guerra no Irã não passa no teste da guerra justa.

Paul Poast

Crédito, Divulgação

Paul Poast - O ponto de partida foi reconhecer que vivemos num mundo de conflitos intensificados há vários anos. Já havia escrito sobre isso antes — não chamava de guerra mundial, mas de um mundo em guerra, em referência ao aumento dos conflitos armados que começou em meados dos anos 2010.

Em 2023, o mundo registrou mais guerras do que em qualquer ano desde o fim da Segunda Guerra. Em 2024, esse recorde foi superado. Em 2025, houve uma estabilização nesse novo patamar elevado. O que mudou foi o início da guerra no Irã, há dois meses. A partir daí, senti que as condições estavam dadas para dizer que estamos diante de uma guerra mundial.

Primeiro, temos duas grandes guerras simultâneas em dois continentes — a Ucrânia e o Irã. Segundo, essas guerras envolvem diretamente grandes potências: os Estados Unidos no Irã e a Rússia na Ucrânia. Mas há um elemento ainda mais significativo: cada uma dessas potências está apoiando o adversário da outra no conflito oposto. Leia também: As empresas que estão ganhando bilhões com a guerra no Irã

Os EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento. E não para por aí.

O próprio Irã esteve envolvido nos dois conflitos — forneceu drones à Rússia para uso na Ucrânia. E agora a Ucrânia vai ao Golfo ajudar a derrubar drones iranianos, porque acumulou muita experiência com isso. Para mim, tudo isso preenche a definição de guerra mundial.

BBC News Brasil - Mas essa comparação não pode ser um exagero, dado que a escala dos conflitos atuais é muito menor do que a das duas guerras mundiais do século passado?

Poast - É um questionamento legítimo, e deixo claro que não estamos diante de nada na escala da Primeira ou da Segunda Guerra. Mas é importante reconhecer que talvez nem devêssemos chamar aqueles conflitos de Primeira e Segunda Guerra Mundial — porque não foram realmente a primeira e a segunda.

Houve outras guerras mundiais que não atingiram aquela escala, mas que preencheram todos os outros critérios. Um exemplo é a Guerra dos Sete Anos, em meados do século 18. Nos Estados Unidos, ela é ensinada como a Guerra Franco-Indígena — mas isso só cobre o teatro norte-americano. Havia simultaneamente um conflito em curso na Europa, envolvendo França, Grã-Bretanha, Prússia e Áustria.

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