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Crédito, J G Soler/ Fundação Gaia Amazonas
- Author, María Paula Rubiano A.
- Role, BBC Earth
- Published Há 4 horas
- Tempo de leitura: 10 min
Para um olhar destreinado, a área da floresta tropical que Kelly Johanna Yucuna cultiva pode parecer resultado de sementes espalhadas aleatoriamente pelo chão, sem nenhum cuidado.
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Mas isso está longe de ser verdade. Em seu pequeno terreno no coração da Amazônia colombiana, tudo, desde a escolha do local até a localização de cada planta, tem uma ordem e um propósito.
Este é o sistema de cultivo conhecido como "chagra", composto por pequenas áreas de cultivo, cada uma com menos do que dois hectares, organizadas em sintonia com os ciclos ecológicos da floresta. É dali que Yucuna e as 240 famílias espalhadas por sua reserva, no macroterritório de Jaguares de Yuruparí, tiram a maior parte dos alimentos que consomem.
Nas "chagras", que alguns pesquisadores chamam de "roças" no Brasil, a fauna prospera e o carbono é armazenado de forma eficiente. Depois de cinco ou seis anos de uso, as áreas de cultivo são devolvidas à floresta. Em toda a região norte da Amazônia, sistemas como esses moldam a vida dos povos indígenas há pelo menos 4.500 anos, integrando dimensões ambientais, econômicas, sociais e espirituais. Leia também: Trump volta a ameaçar Irã após novos ataques dos EUA e diz que país pode
O restante do mundo talvez tenha muito a aprender com as "chagras" e sua forma de produzir alimentos. Mas esses sistemas também estão ameaçados pelo avanço da mineração, do desmatamento, do narcotráfico e das mudanças climáticas sobre a Amazônia.
Agora, a corrida é para garantir a sobrevivência desses sistemas agrícolas sustentáveis únicos, e da cultura que os sustenta.
Universo cultivado
As "chagras" estão profundamente ligadas à cosmologia dos povos indígenas, que por sua vez se orienta pelo calendário ecológico da floresta, marcado pelos ciclos de frutificação, cheias dos rios, pesca e caça.
"Na chagra, tudo tem sua própria ordem e propósito", afirma Juan Felipe Guhl, antropólogo e especialista em questões socioambientais do Instituto Sinchi, na Colômbia. "Ter uma boa chagra significa saber o momento certo de cortar, colher, replantar, limpar e cuidar de todo o sistema."
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Na reserva de Miriti-Paraná, onde Yucuna vive, cada família mantém pelo menos duas ou três "chagras": uma nova, uma em plena produção e outra em fase de regeneração. Antes do plantio, os anciãos aprovam o terreno escolhido e pedem permissão aos espíritos da floresta, a quem chamam de donos superiores da terra, para transformar os lares de animais e plantas, conta Yucuna. Os anciãos também pedem aos espíritos que afastem as serpentes, protejam os galhos sobre as cabeças da comunidade e garantam colheitas abundantes.
Em seguida, vem o "socola y tumba", um processo coletivo de preparo do terreno que mobiliza toda a comunidade, que chega com machados e facões. Leia também: 'Foi um milagre': a história da mãe e bebê de 18 dias resgatados após mais
Embora a criação de uma "chagra" envolva a derrubada de algumas árvores, as comunidades escolhem cuidadosamente as áreas que serão abertas, afirma César Echezuría Fernández, geógrafo independente que estuda as "chagras" no Equador, onde elas são conhecidas como "chakras". Segundo Fernández, costumam priorizar a remoção de árvores de menor porte e cipós.
Pesquisas mostram que as comunidades preservam cerca de metade das espécies nativas de árvores presentes nas áreas transformadas em "chagras". Estudos também indicam que esses sistemas agrícolas são muito mais biodiversos do que outras formas de cultivo, como as plantações de cacau em monocultura. As "chagras" também armazenam mais carbono do que cultivos em monocultura e, em alguns casos, atingem níveis comparáveis aos de florestas secundárias.
Laços de filiação
Após um curto período de descanso e uma queima controlada, conhecida como "quema", as mulheres plantam as primeiras sementes da "chagra".
Em Miriti-Paraná, as "chagras" costumam ser abertas antes de junho. As primeiras colheitas de mandioca, banana-da-terra e abacaxi ficam prontas cerca de um ano depois.
Sempre que inicia uma nova chagra, Yucuna se lembra dos ensinamentos da mãe e da avó: plantar primeiro a coca e as melhores variedades de mandioca. "A mandioca representa as mulheres e a coca representa os homens", diz Yucuna. "Por isso elas precisam estar juntas, no centro da área de cultivo."

Economia do cacau

Combate ao desmatamento
'Uma bagunça ecológica'

Chagras globais

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