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Após auxiliar mulheres que buscam credibilidade pela roupa, Thais Farage estuda

Em uma reunião da escola de seus filhos, a pesquisadora de gênero e especialista em consumo feminino Thais Farage, 42, interveio quando uma professora sugeriu pensar em

Após auxiliar mulheres que buscam credibilidade pela roupa, Thais Farage estuda

Em uma reunião da escola de seus filhos, a pesquisadora de gênero e especialista em consumo feminino Thais Farage, 42, interveio quando uma professora sugeriu pensar em estratégias para controlar a raiva que uma aluna de quatro anos estava sentindo. " Na hora, eu falei: ‘gente, há situações em que temos que ter raiva, deixa a menina’", conta.

Ela mesma diz que, muitas vezes, é considerada brava e não acha isso uma ofensa. Nascida em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, e criada na também mineira cidade de Leopoldina, Thais perdeu a mãe quando tinha 14 anos. A partir de então, foi cuidada pelo pai adotivo, pela avó e pelas tias —mulheres bravas, segundo ela.

Leia no AINotícia: Entretenimento: O que Movimentou a Semana

" Nunca fui ensinada a ser amada por todo mundo. Isso fez diferença na minha vida porque fico tranquila se alguém acha isso ou aquilo de mim", diz.

A pesquisadora afirma que se importa mais com a própria opinião, e foi isso que a fez mudar o rumo da carreira após dez anos trabalhando como consultora de estilo. Até 2022, Thais viajava por várias cidades do Brasil com o workshop "Estilo no Trabalho". Nos encontros, ouvia sempre as mesmas perguntas feitas por mulheres, como:

Qual é o comprimento certo da saia? Que roupa devo usar para não ser interrompida nem assediada? E para ter credibilidade? Leia também: JR transforma a Pont Neuf, ponte mais antiga de Paris, numa caverna monumental

As dúvidas têm relação com os números da pesquisa "Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras", que ouviu Thais para os dados qualitativos. Feito pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais, o levantamento mostrou que 45% das mulheres negras e 31% das brancas entrevistadas (total de 1.059) afirmaram mudar a roupa para serem ouvidas. "

Ao escutar aquelas mulheres [preocupadas com a opinião masculina], comecei a perceber que a moda não era suficiente. Não importa o que a gente veste. Era necessária uma discussão de gênero", lembra Thais.

Ao escutar aquelas mulheres [preocupadas com a opinião masculina], comecei a perceber que a moda não era suficiente. Não importa o que a gente veste. Era necessária uma discussão de gênero

Ela já tinha lançado, em 2021, o livro "Mulher, Roupa, Trabalho: Como se Veste a Desigualdade de Gênero" (editora Paralela), em parceria com a advogada Mayra Cotta, e, no ano seguinte, decidiu ampliar ainda mais seu conhecimento. Foi fazer mestrado na USP (Universidade de São Paulo) sobre as relações entre gênero e poder a partir da moda.

Na reta final do trabalho, ela investiga como as três ex-presidentes latino-americanas —a brasileira Dilma Rousseff, a chilena Michelle Bachelet e a argentina Cristina Kirchner— usaram o modo de se vestir como cultura material e instrumento para legitimar o poder. " Percebi que quanto mais eu estudo, mais eu vejo que não trabalho com moda. Mais de entretenimento

Trabalho com roupa como cultura material, porque a roupa é uma consequência da cultura. " Em sua pesquisa acadêmica, ela analisa como a questão do gênero aparece na política.

" A Dilma e a Michelle Bachelet, por exemplo, são mulheres que vieram de histórias de luta, com um profundo conhecimento político. Elas tiveram que exercer um poder tido como masculinizado.

Usam, por exemplo, roupas que vêm do terno. Elas precisaram pegar esses códigos da masculinidade emprestados. " Leia também: Neto vence processo contra Valdivia, que vai pagar R$ 60 mil por postagem

Mesmo fazendo isso, elas ficaram longe de conseguir o poder dado aos homens, observa. " As mulheres são muito mais atacadas, inclusive pelo que vestem.

A gente não criou um lugar minimamente salubre para que elas ocupem posições de influência na política, área que estudo. " Dilma sofreu um impeachment em 2016 e hoje é presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do Brics); Bachelet, após concluir dois mandatos como presidente, em 2018, atualmente é uma das principais candidatas ao cargo de secretária-geral da ONU; Kirchner foi condenada a seis anos de prisão por corrupção, em junho de 2025, no caso que investigava cobrança de propinas na construção de rodovias.

Ela cumpre a sentença em seu apartamento, em Buenos Aires, e está impedida de se candidatar a cargos públicos. Não à toa, quando questionada sobre qual é a imagem do poder, Thais diz que é um homem branco de terno. "

Ele representa o líder, o dono das conversas", afirma. No entanto, ela ressalta que não admira nem persegue esse estereótipo. O que a movimenta é ser uma pessoa livre e abrir espaço para mulheres que buscam o poder.

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