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Ler matéria →Anatomia do Caos: documentário reconstrói os bastidores da CPI da Covid-19 Cineasta Dandara Ferreira afirma: "
Não estávamos apenas diante de uma pandemia, mas de uma tragédia agravada por escolhas humanas” No dia, o taxista Márcio Antônio do Nascimento Silva, de 57 anos, depôs na CPI da Covid-19. “
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Meu filho não é um 1número. Minha dor não é mimimi”, declarou ele, que perdeu Hugo Dutra do Nascimento Silva, de 25 anos, no dia. “Quando fui reconhecer meu filho, ele estava dentro de um saco.
Não pude dar um abraço nele. Não pude dar um último beijo”, emocionou-se. Seu depoimento era uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro que, no dia, protestou sobre a pressão que recebia por conta do avanço do coronavírus: “Chega de frescura, de mimimi.
Vão ficar chorando até quando? ”. “Nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do país”, lamentou Márcio. Leia também: Cacique Raoni ganha destaque após novo desdobramento em cacique raoni: qual é
O relato do taxista é um dos momentos mais emocionantes do documentário Anatomia do Caos, roteirizado e dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, que chega aos cinemas hoje, dia 2. A CPI da Covid-19 teve início no dia e chegou ao fim no dia. Durante seis meses, mais de 60 pessoas, entre autoridades, médicos e familiares de vítimas, prestaram depoimento no Senado.
Márcio Antônio do Nascimento Silva morreu no dia, aos 58 anos. Vítima de problemas cardíacos, partiu sem ver nenhum dos 78 indiciados pela CPI punido pelas 716.626 mortes de Covid-19 registradas no país. “Que país é esse em que uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais?
”, questiona Ferreira. A seguir, confira uma entrevista com a responsável pelo filme: Confira a entrevista com Dandara Ferreira Saúde é Pop: “Como” e “quando” surgiu a ideia de fazer o documentário Anatomia do Caos, que registra os bastidores da CPI da Covid-19?
Dandara Ferreira: A ideia nasceu praticamente junto com a CPI. Quando ela foi instalada, em abril de 2021, tive a sensação de que estava diante de um acontecimento histórico.
Pela primeira vez, o Estado brasileiro passaria a investigar, publicamente, as decisões tomadas durante a maior crise sanitária da nossa história. Naquele momento, eu não sabia exatamente qual seria o filme. Sabia apenas que aquele processo precisava ser registrado. Mais de saude
À medida que acompanhei os depoimentos e consegui acesso aos bastidores, percebi que a CPI era mais do que uma investigação parlamentar. Ela se tornou um espaço onde o Brasil confrontava suas próprias escolhas. Foi ali que entendi que poderia existir um filme.
+ A CPI durou cerca de seis meses. Qual teria sido o momento mais difícil?
O mais difícil não foi um dia específico, mas conviver durante anos com esse material. Rever continuamente aquelas imagens foi emocionalmente muito duro. Mas, se eu tivesse que escolher um momento, seria tudo o que envolve Manaus. Leia também: Higiene bucal infantil ganha destaque após novo desdobramento em higiene bucal
A falta de oxigênio, o desespero das famílias e a sensação de abandono representam um ponto de ruptura. Ali ficou evidente que não estávamos apenas diante de uma pandemia, mas de uma tragédia agravada por escolhas humanas. A CPI propôs o indiciamento de 78 pessoas, incluindo o presidente Jair Bolsonaro.
Nenhuma delas, porém, foi condenada. O que isso diz sobre o Brasil? Acho que isso revela uma característica muito profunda da história brasileira: nós temos dificuldade em transformar traumas em responsabilização.
Muitas vezes, produzimos provas, produzimos memória, produzimos indignação, mas nem sempre conseguimos produzir justiça. O Brasil convive há muito tempo com uma cultura de impunidade em relação às grandes responsabilidades do Estado. Isso não significa que a CPI tenha sido inútil.
Pelo contrário. Ela construiu um registro histórico extremamente sólido sobre como a pandemia foi conduzida. Esse patrimônio documental permanece, independentemente dos desdobramentos judiciais.
Mas, o fato de tantas pessoas apontadas pela CPI não terem sido responsabilizadas nos obriga a fazer uma pergunta incômoda: que país é esse em que uma tragédia desta dimensão pode não produzir consequências proporcionais? É justamente aí que o cinema também tem um papel importante. A Justiça trabalha com processos e prazos.


