Ana Claudia Quintana Arantes: “ O Brasil é um dos piores países do mundo para morrer”
Os desafios do envelhecimento e da finitude, numa conversa franca e inspiradora com a defensora dos cuidados paliativos e geriatra Ana Claudia Quintana Arantes O primeiro trabalho de Ana Claudia Quintana Arantes foi em uma enfermaria de bonecas. Após a avó perder as duas pernas por complicações de uma doença vascular, Ana, ainda criança, cortou os membros dos brinquedos e prometeu à matriarca que seria médica e não deixaria mais ninguém sentir dor.
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Ela cumpriu a promessa. Apesar das dificuldades, Arantes formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e tornou-se um dos principais nomes no país em defesa dos cuidados paliativos, assistência que permite que pessoas convivendo com doenças graves tenham qualidade de vida, inclusive em seus últimos momentos. Desde 2016, é também uma escritora best-seller.
Marcando uma década de sucesso nas livrarias, a editora Sextante lança em maio um box com os quatro livros mais emblemáticos da geriatra, que tratam sobre finitude e envelhecimento (clique aqui para comprar). “Para mim, a escrita é mágica”, descreve. “Sinto que dá conforto a todos.
” A VEJA SAÚDE, a especialista dá sua visão sobre o que é uma vida e uma morte dignas. Coleção Ana Claudia Quintana Arantes – Box com 4 livros VEJA SAÚDE: Leia também: Farinha de linhaça ganha destaque após novo desdobramento em farinha de
De onde veio sua vontade de ser médica? Você sempre soube que trabalharia com o que chamamos hoje de cuidados paliativos? Ana Claudia Quintana Arantes:
Entrei na faculdade muito jovem e, na graduação, meu propósito em ser médica estava profundamente ligado ao cuidado da dor e do sofrimento alheios. Esse desejo nasceu no núcleo da minha família. Embora não houvesse nenhum médico entre meus parentes, convivi com o sofrimento físico da minha avó materna, que enfrentava uma doença vascular que levou à amputação das pernas.
Por causa da dor, ela pedia muito para morrer. Havia também minha irmã do meio, que tinha um problema neurológico grave, e a doença psiquiátrica do meu pai, que era alcoolista. Portanto, eu tinha diversos motivos para querer cuidar das pessoas em diferentes situações.
No entanto, na faculdade, não encontrei as respostas que buscava. O que vi foi uma dedicação determinada — e até obsessiva — em relação à doença. Quando se chegava a uma condição irreversível, a resposta era:
“Não há nada a fazer”. Houve um período em que interrompi o curso, pois não via sentido em continuar. Mas, como havia feito uma promessa à minha avó, retornei. Mais de saude
Pensei: “Se sou inteligente o bastante para entrar aqui, quem sabe a pessoa que descobrirá as respostas para as minhas perguntas serei eu mesma”. Hoje você é considerada uma das pioneiras na implementação dos cuidados paliativos no Brasil.
Por onde esse trabalho começa? O trabalho começa no momento em que se tem o diagnóstico da doença. Na geriatria, tive a oportunidade de me desenvolver muito na experiência do cuidado ao paciente em fase final de vida.
Isso foi possível porque, na residência do hospital universitário, meu chefe permitia que eu acolhesse pacientes que estavam no pronto-socorro morrendo. Eles já tinham um diagnóstico, mas estavam totalmente desassistidos. Foi também nessa época que aprendi a trabalhar em equipe. Leia também: Morte de Kyle Busch: campeão da NASCAR teve pneumonia que virou sepse em horas
Entendi que há muitos saberes que a medicina não abarca e que só podemos oferecer um cuidado melhor ao paciente se houver uma união desses conhecimentos. O trabalho começa, de fato, a partir da integração com enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais envolvidos. Esse trabalho também vai além do próprio paciente?
Os cuidados paliativos envolvem um projeto de continuidade da assistência. Enquanto o paciente está vivo, cuidamos dele e de sua família. Quando ele falece, cuidamos de todo o processo da morte e continuamos oferecendo presença e suporte na condução do luto.
Nesse momento, podem surgir situações complicadas pelas mais variadas causas. Por que não falamos mais abertamente sobre a morte? E o que esse silêncio causa a nós, como indivíduos, e à sociedade?
Vejo que isso gera uma vida muito desgastante e vazia. E a vida vazia pesa. Quando temos consciência de que há um fim, nos organizamos para viabilizar aquilo que queremos viver no tempo que nos resta.
Como não sabemos a data nem os eventos que nos aguardam, quanto menos o corpo incomoda, menos nos lembramos dele. Acabamos notando o corpo apenas quando algo dói, quando há um problema de funcionamento ou quando perdemos a independência. É aí que percebemos que existe algo que não durará para sempre.
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