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Ambiente dos mercados está mais perigoso do que costumava ser, diz Andrew Ross

Publicidade Andrew Ross Sorkin passou boa parte da carreira observando de perto os momentos mais decisivos — e turbulentos — de Wall Street

Ambiente dos mercados está mais perigoso do que costumava ser, diz Andrew Ross

Andrew Ross Sorkin passou boa parte da carreira observando de perto os momentos mais decisivos— e turbulentos— de Wall Street. Criador da DealBook, do New York Times, há mais de duas décadas, apresentador da CNBC e cocriador da série Billions, o jornalista se consolidou como uma das principais vozes na cobertura dos mercados financeiros e do poder corporativo nos Estados Unidos. Ele também é o autor de Too Big To Fail, um dos principais registros sobre a crise financeira de 2008 e o colapso do Lehman Brothers.

Agora, Sorkin volta seu olhar para o crash de 1929, momento que transformou a economia americana e deu início à Grande Depressão. Ao reconstruir os acontecimentos que antecederam a quebra da Bolsa de Nova York, o jornalista busca entender como períodos de prosperidade e otimismo podem levar investidores, empresários, reguladores e até a imprensa a ignorar sinais de alerta que, em retrospecto, pareciam evidentes.

Leia no AINotícia: Tensões no Oriente Médio

Os paralelos com o presente são inevitáveis. Assim como nos anos que antecederam o colapso de 1929, investidores apostam hoje em tecnologias capazes de transformar a economia, enquanto os mercados renovam recordes e atraem volumes crescentes de capital. Mas Sorkin procura ir além dessa comparação mais imediata. Seu foco está nas responsabilidades individuais e coletivas que ajudam a alimentar bolhas financeiras— e nas lições que permanecem válidas independentemente da época, do contexto econômico ou da tecnologia da vez.

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Esses temas estão no centro de 1929– Por dentro da maior crise da história de Wall Street e como ela abalou o mundo, livro lançado nos Estados Unidos em 2025 e que se tornou best-seller do New York Times. A edição brasileira chega às livrarias em 15 de junho, pela Companhia das Letras.

Capa do livro “1929 – Por dentro da maior crise da história de Wall Street – e como ela abalou o mundo” (Divulgação/Companhia das Letras)

Em entrevista ao InfoMoney, Sorkin fala sobre a euforia em torno da inteligência artificial, os riscos de uma nova bolha financeira, o papel da imprensa em momentos de exuberância do mercado e as lições de 1929 para investidores de hoje. Leia também: EUA negam entrada de árbitro somali que apitaria a Copa do Mundo

Confira a entrevista:

InfoMoney: Desde que você lançou o livro, em 2025, muita coisa mudou nos mercados e no mundo, mas os índices continuam renovando recordes. Você acha que os mercados ficaram mais perigosos nos últimos meses?

Andrew Ross Sorkin: Acho que o mercado ficou ainda mais eufórico. A empolgação com IPOs como os da SpaceX, OpenAI e Anthropic capturou a imaginação dos investidores. Os mercados atingiram máximas históricas ao mesmo tempo em que vivemos uma guerra no Oriente Médio, com os preços do petróleo nos níveis mais altos em anos e sem nenhuma perspectiva clara de quando isso vai acabar.

Para mim, existe um descompasso entre todos os riscos existentes e a empolgação do mercado. Quero acreditar que todas essas empresas serão tão bem-sucedidas quanto esperamos que sejam, e que a guerra termine rapidamente— mas o mundo costuma ser muito mais complicado do que isso.

Meu receio é que, em algum momento— e não sei se será este ano, talvez nem no próximo —, algo aconteça. Em um mercado em alta, esse entusiasmo pode durar muitos e muitos anos. Não há motivo para que precise acabar amanhã. Mas, claramente, o ambiente está mais perigoso do que costumava ser. Mais de economia

IM: Usando termos que ouvi em várias entrevistas suas e também no livro: esse ambiente abre espaço para investidores “otimistas” demais?

Sorkin: Acho que uma das coisas que acontecem quando você tem uma arrancada como essa é que ela abafa as “Cassandras” [personagem da mitologia grega que tinha o dom de prever o futuro, mas cujos alertas nunca eram levados a sério]. Os céticos acabam sendo silenciados. E, na verdade, às vezes eles até desistem de ser céticos. Os mercados continuam subindo. E geralmente é quando todo mundo abandona o ceticismo que deveríamos ser ainda mais céticos.

IM: O livro coloca o National City Bank, o maior banco americano às vésperas do crash de 1929, como uma instituição “grande demais para quebrar”. Hoje, muitos enxergam a Nvidia nesse papel. Com os mega-IPOs em curso, o risco ficou mais distribuído ou continuamos concentrados na mesma aposta: a inteligência artificial? Leia também: Varejo deve movimentar R$ 2,84 bi em vendas para o Dia dos Namorados, calcula

Sorkin: Acho que, da mesma forma que víamos os grandes bancos como “grandes demais para quebrar” em 2008, as grandes empresas de tecnologia ocupam hoje esse lugar.

Se algum dia houver um problema com uma dessas companhias, consigo imaginar o governo vindo socorrê-las— o governo americano ou até outros governos— porque elas se tornaram tão importantes para a economia global que uma quebra teria consequências muito sérias para todos nós.

Digo isso porque talvez exista até um “put” [uma espécie de garantia implícita de proteção ou socorro em caso de crise] para algumas das maiores empresas de tecnologia. Algo que antes simplesmente não existia.

IM: Muita gente se pergunta se existe uma bolha de IA. É a primeira vez que ouço essa perspectiva de uma espécie de barreira que poderia proteger o mercado de um crash ligado à inteligência artificial.

Sorkin: Embora eu fale frequentemente sobre crises e me preocupe com o risco de queda, a verdade é que, ao longo dos últimos cem anos, valeu a pena ser otimista. E muito. Mesmo quando houve crises, na maior parte das vezes os investidores que conseguiram permanecer no mercado saíram em melhor situação do outro lado.

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