A técnica que dobra as chances de alguém sobreviver a uma parada cardíaca A reanimação cardiopulmonar pode ser feita por qualquer pessoa e, se realizada nos primeiros minutos após uma parada, pode dar uma nova chance para a vida A parada cardíaca é um dos episódios médicos mais críticos e, ao mesmo tempo, um dos mais mal compreendidos pela população.
Por outro lado, ele também é muito comum. Anualmente, ocorrem cerca de 300 mil casos só no Brasil. E a grande maioria deles acontece em casa.
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De cada dez paradas, oito ocorrem dentro da residência do paciente. Nesse cenário, faltam, portanto, suportes médicos, o que pode ser dramático, já que, a cada minuto que passa, a vítima perde aproximadamente 10% da chance de permanecer viva. É possível, porém, contornar essas taxas e a solução pode estar, literalmente, nas mãos das famílias.
Isso porque, quando uma manobra de reanimação cardiopulmonar (RCP) é realizada em até cinco minutos após o mal súbito, a taxa de sobrevida pode chegar a números entre 50% a 70%. Sendo assim, a chance de viver pode vir depois de uma parada cardíaca — um convite à reflexão sobre as emergências cardiovasculares e o papel de cada um na cadeia de sobrevivência. O que fazer ao testemunhar uma parada Leia também: jogo do santa cruz
Quando o coração para, a vida corre risco imediato. A parada ocorre quando o músculo cardíaco interrompe de forma súbita suas batidas efetivas, cessando o fluxo sanguíneo para o cérebro e demais órgãos. Em poucos minutos, sem tratamento, isso pode levar rapidamente à morte.
A gravidade do evento é tamanha que cada segundo conta, e é aí que entra a importância do conhecimento e da ação rápida por parte do público leigo. O que vem depois desse momento crítico depende diretamente das ações tomadas nos primeiros minutos. A sobrevivência não está apenas nas mãos dos profissionais de saúde, mas também de testemunhas que podem, e devem, intervir até a chegada do socorro especializado.
O papel da população diante da emergência envolve três passos fundamentais que garantem a chamada “corrente da vida”. O primeiro é reconhecer a emergência: a pessoa pode perder a consciência, parar de respirar normalmente ou não responder de forma adequada. Saber identificar esses sinais rapidamente aumenta as chances de sucesso na intervenção.
O segundo passo é chamar ajuda imediatamente, acionando o serviço de emergência pelo número 192. Qualquer demora pode custar vidas. O terceiro passo é iniciar as manobras de RCP, mesmo sem treinamento avançado: a execução de compressões torácicas ajuda a manter o sangue oxigenado circulando até a chegada dos profissionais.
Quando disponíveis, deve-se utilizar os desfibriladores externos automáticos (DEA), aparelhos capazes de restaurar um ritmo cardíaco eficaz e projetados para uso por leigos, com instruções simples e seguras. É essencial desmistificar a ideia de que “não há nada a fazer” ou de que apenas profissionais de saúde podem fazer a diferença. Ao contrário: quando um coração para de bater, a primeira resposta pode estar nas mãos de quem está ao lado da vítima, e isso pode transformar um desfecho fatal em uma história de sobrevivência. Mais de saude
Treinamento faz a diferença Em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, o projeto de reanimação cardiopulmonar Cor+Ação, criado pela ONG Salva Coração em parceria com a prefeitura municipal e com apoio da SOCESP, já treinou mais de 11 mil voluntários, incluindo crianças. Antes da implantação do projeto, apenas 8% das vítimas após um evento cardiorrespiratório chegavam com vida aos hospitais, um índice já superior à média nacional, que é de cerca de 2%.
Na Europa e nos Estados Unidos, esses números giram em torno de 22%. Atualmente, 28% dos infartados em São José dos Campos sobrevivem até receber atendimento formal. A SOCESP mantém há décadas um Centro de Treinamento em Emergências Cardiovasculares, credenciado pela American Heart Association (AHA), para ministrar cursos de Suporte Básico de Vida (BLS) e Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS) no Brasil. Leia também: Encolhimento dos ombros fortalece o músculo trapézio: saiba como fazer
Ao longo desse período, já capacitou milhares de pessoas. Recentemente, centenas de guardas civis metropolitanos, que atuam na região da Avenida Paulista, foram capacitados para realizar manobras de RCP e utilizar desfibriladores até a chegada do SAMU, em uma parceria com a Prefeitura de São Paulo. “
O que vem depois de uma parada cardíaca? ” não é apenas uma pergunta provocadora; é um chamado à ação. A resposta envolve conhecimento, prontidão e coragem para agir antes da chegada do socorro profissional.
Assim, podemos transformar a escuridão em luz, o fim em um recomeço. Porque, quando salvamos uma vida, salvamos uma história, uma família, salvamos toda a humanidade. *Pedro Duccini é cardiologista e assessor científico da SOCESP
– Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo e fundador da ONG Salva Coração. Agnaldo Piscopo é cardiologista e diretor do Centro de Treinamento em Emergências Cardiovasculares da SOCESP.
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