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A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista

A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista plástica mundialmente reconhecida: 'Não acredito em fazer dinheiro e sair do país' -

A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista

A paulistana filha de faxineira e pintor de paredes que se tornou artista plástica mundialmente reconhecida: 'Não acredito em fazer dinheiro e sair do país' - Author, Júlia Dias Carneiro - Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil - Published - Tempo de leitura: 10 min No último Dia da Consciência Negra, Rosana Paulino chegou ao Museu de Arte do Rio de Janeiro, o MAR, não apenas como uma artista visual consagrada, mas também como curadora. Era o lançamento de uma série de minidocumentários sobre 20 artistas brasileiros negros e negras que desenvolvem trabalhos "de excelência", como ela destacou ao lado do diretor Fabiano Maciel.

" Isso não é uma onda passageira. São artistas muito bem formados, com produções muito fortes e bem fundamentadas e que simplesmente não eram conhecidos", ressaltou Paulino perante a plateia.

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"Estamos dentro de um momento histórico. " O momento prolífico vem de caminhos abertos pela própria artista.

Filha de um pintor de paredes e de uma faxineira, a paulistana é referência na arte brasileira e representa o país na 61ª Bienal Internacional de Veneza, ao lado da carioca Adriana Varejão. No palco do MAR, estava à vontade no papel de decana da arte afro-brasileira. Voltar holofotes para o trabalho de outros artistas simboliza a generosidade dos seus 30 anos de carreira — e o contraste com o início de sua trajetória.

" Trabalhei praticamente dez anos sozinha quando comecei", conta a artista e educadora de 59 anos à BBC News Brasil, lembrando a ausência de artistas negros na cena contemporânea em meados dos anos 1990. " Leia também: Raúl Castro indiciado, porta-aviões no Caribe e mais: os sinais de que Trump

Agora, a proliferação de artistas, críticos e curadores [afro-brasileiros] que temos... Esse é um panorama que eu não esperava ver em vida", comemora. "

Falta muito? Falta. Mas é muito encorajador ver tantos nomes.

" Paulino vem enfileirando feitos nos últimos anos. Teve exposições individuais em cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, onde descortinou um painel de nove metros de altura na High Line.

Teve obras compradas pela Tate Modern, em Londres, e pelo MoMA (o Museu de Arte Moderna de Nova York), além de ter recebido prêmios como o Munch Award (que a destacou como "voz de liderança do feminismo negro" em sua primeiríssima edição, em 2024) e o Jane Lombard de Arte e Justiça Social (em reconhecimento por História Natural, de 2016, livro em que explora as histórias entrelaçadas da ciência e da violência racial). Em um país com mais de 55% da população negra e parda, fingir que a visualidade brasileira é só aquilo que está nos museus, seguindo os critérios europeus ou o americano, é uma "sandice", diz Paulino. "

Não podemos ter um sistema de artes visuais como tínhamos, ou ainda temos. Isso é uma aberração. O Brasil é um país que não olha para si mesmo, que não se enxerga. Mais de mundo

A entrada de negros e negras no panorama do país é salutar. Temos uma visualidade muito forte, e boa parte vem das produções negras e indígenas. "

Comigo Ninguém Pode Ao lado de Adriana Varejão, Rosana Paulino comanda o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, em uma edição composta apenas de mulheres, sendo duas negras — a curadoria deste ano coube a Diane Lima, a primeira mulher negra alçada a este cargo. "É uma oportunidade de discutir a formação do país de uma maneira sofisticada, apresentando para o mundo, junto com a Varejão, um Brasil diferente, que muita gente não sabe que existe e que é fortemente marcado pela questão negra e pela relação com a natureza", diz Paulino.

" Colocar essas discussões em um palco privilegiado como Veneza é realmente fantástico. " Leia também: Perguntamos às IAs em quem votar — veja o que elas responderam, mesmo proibidas

O título da mostra, "Comigo Ninguém Pode", vem de uma das obras de Paulino, da série Senhora das Plantas, em que retrata mulheres com galhos, folhas e raízes em plena metamorfose com plantas de poder. Popular e com potencial tóxico, a comigo-ninguém-pode fala de "proteção, resiliência e estratégias de sobrevivência em contextos hostis", descreve Paulino. Não é a primeira vez de Paulino na Bienal de Veneza.

Em 2022, ela foi convidada pela curadoria internacional para a mostra principal. "É muito simbólico que Rosana esteja no pavilhão brasileiro depois de estar na exposição principal", diz Igor Simões, que foi cocurador de sua mostra individual no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, em 2024. "

A curiosidade estrangeira veio antes de o Brasil entender o quão gigante é a sua produção. Tê-la no pavilhão faz crer que o país esteja interessado em olhar para si mesmo, e para a matéria da qual é feito. "

Trabalhando com desenhos, pinturas, bordados, gravura, colagem, escultura e instalações, Paulino desenvolve obras que refletem sobre a posição da mulher negra, a ancestralidade e as marcas do colonialismo e da escravidão na sociedade brasileira. Ela desconstrói imagens e teorias racistas de pseudociências que propagavam a inferioridade do negro para justificar a escravidão. "

O racismo científico foi pouco estudado, mas é fundamental para entender a desumanização e a desvalorização desse corpo, a ponto de ser totalmente descartável", afirma. " Sem isso, a gente não entende como a polícia mata do jeito que mata.

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