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A liberdade e o que falta fazer com ela

Escrevo este texto olhando para uma relíquia familiar

A liberdade e o que falta fazer com ela

Escrevo este texto olhando para uma relíquia familiar. Todos os anos, nesta data, pego nela. É uma agenda de 1974, onde a minha mãe apontava, a letra miudinha, os seus compromissos e os desenvolvimentos do namoro com o meu pai. No dia 25 de Abril, as palavras manuscritas agigantam-se a vermelho: "Dia da Revolução, Grande Dia de Portugal". Cumpria-se um sonho. Com 19 anos, a minha mãe percebia bem o quão importante era para ela e para o país aquele golpe militar que punha fim a quase 50 anos de ditadura, a mais longa da Europa, ao qual a população aderiu com cravos na mão e ardor pela liberdade.

Mulher vestindo blusa estampada e chapéu preto segura flores vermelhas durante protesto em área sombreada por árvores. Pessoas ao fundo participam da manifestação.
Manifestante segura cravo durante comemoração dos 52 anos da revolução portuguesa, em Lisboa, no sábado (25) - Pedro Nunes /Reuters

Os meus amigos brasileiros costumam dizer-me que invejam a revolução portuguesa. Enquanto a transição democrática em Portugal aconteceu com carros blindados e botas da tropa, no Brasil foi feita suavemente, com pezinhos de lã. O fim da ditadura brasileira implicou uma abertura lenta, gradual e pactuada, uma suavidade acomodatícia que evitou choques, ruturas radicais e também limpezas profundas. Os brasileiros terminaram um regime autoritário de 21 anos como se fosse apenas um aviso de fim de festa. Como o ambiente estranho que fica numa pista de dança quando muda o ritmo para convidar a sair, mas a música continua a tocar sem mandar ninguém para casa.

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A revolução portuguesa teve os seus excessos, é um fato, até se conseguir a consolidação da democracia, que só chegou com a Constituição de 1976. Como acontece sempre, cometeram-se erros e abusos. Há quem cite a tirada que diz que "uma revolução não é um convite para jantar", mas eu não aprecio Mao Tse-tung. Prefiro pensar que, apesar de tudo, foram certamente muito menos injustiças cometidas do que o sofrimento infligido a vários povos (incluindo os das colônias) durante cinco décadas.

Para a esmagadora maioria dos portugueses, há um antes e depois deste "dia inicial inteiro e limpo", como lhe chamou a poetisa Sophia de Melo Breyner, que celebramos sábado passado com desfiles e flores. Mas, mais importante do que a conquista da liberdade, é o que fazemos com ela.

Portugal e o Brasil avançaram ambos muitíssimo nestes anos pós-ditadura. Hoje são nações incomparavelmente mais desenvolvidas: reduziram a enorme pobreza e as desigualdades, baixaram a mortalidade infantil e o analfabetismo, universalizaram a saúde e a educação. Mesmo assim, tanto André Ventura, líder do Chega (da ultradireita), como o ex-presidente Jair Bolsonaro elogiam com frequência os tempos das ditaduras. Em ambos os casos, é preciso muita desonestidade para olhar para o notável caminho percorrido e dizer que correu tudo mal. Mais de politica

O problema é que as pessoas querem, legitimamente, sempre mais. Querem tudo aquilo a que têm direito. Depois das ditaduras, prometeram-nos igualdade, prosperidade, segurança: uma vida boa. Mas, nos dois países, essa vida boa só chegou para alguns, poucos. É precisamente este ressentimento com um futuro prometido e não atingido que alimenta os populismos. Ele é o combustível político dos dias de hoje. Enquanto os partidos políticos moderados e democráticos não encontrarem forma de completar estas transições inacabadas e entregarem o que falta cumprir, os populistas terão sempre terreno fértil para florescer com promessas inebriantes. Leia também: Gilmar e a derrota autoinfligida

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