Flávio Dino puxa um novo fio de fraudes na meada das emendas
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Mafalda Anjos
Dez anos depois de "pós-verdade" ter sido eleita palavra do ano, há um novo conceito político e social a impor-se: a "pós-vergonha".
Reparem: a vergonha é, desde os primórdios, um sentimento importante para o ser humano. A sociologia explica como esta emoção funciona como fenômeno de regulação social que é prévio até à lei– nós abstemo-nos de dizer ou fazer coisas que ofendem e chocam os outros, porque nos sentimos embaraçados. A vida coletiva assenta nesta preocupação inata com o olhar de aprovação exterior.
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Mas, hoje, os sem-vergonha estão por todo o lado. São polêmicos, são ofensivos e não têm qualquer pudor em indignar ou atacar. Todos percebemos que são cada vez mais os que defendem posições abertamente racistas, xenófobas, machistas, homofóbicas ou autoritárias nas redes sociais– e não só. Leia também: Certificação de pesquisa não é atribuição da Justiça Eleitoral e tumultua
As últimas semanas têm sido marcadas por declarações chocantes que correram o mundo. Há dias, por causa do mundial de futebol, a senadora paraguaia Celeste Amarilla atirou-se ao capitão da seleção francesa com ataques racistas. Ela disse, por exemplo, que Mbappé era um "camaronês colonizado" que "o mais instruído que ouvia eram os chimpanzés".
Antes, no Brasil, ouvimos o jornalista Paulo Figueiredo dizer que as mulheres votam mal e a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi afirmar, sem vergonha, que as mulheres não deveriam ter direito ao voto.
Nos Estados Unidos, Donald Trump está sempre a fazer declarações ofensivas, discriminatórias ou insultuosas contra minorias, rivais e até aliados. A 4 de Julho assistimos a uma manifestação de 300 supremacistas brancos e neonazis a desfilar por Washington. Mais de politica
O meu ponto é que vivemos tempos bem para lá dos fatos alternativos e das mentiras que se generalizaram– hoje perdeu-se a vergonha de mostrar ou dizer ideias ofensivas, outrora consideradas impronunciáveis e indefensáveis.
O cientista político português Vicente Valentim explicou que as ideias racistas, machistas ou homofóbicas não despareceram verdadeiramente da sociedade: estavam só recalcadas até surgirem políticos que as pronunciassem, como fizeram tantos líderes políticos populistas. Leia também: PRTB lança à Presidência Leonardo Avalanche, que coordenou campanha de Marçal
Claro, a internet contribuiu para a redução da vergonha como fenômeno de autocontrole e moderação na relação com os outros, sobretudo por causa do efeito de bolha onde se juntam pessoas que pensam da mesma maneira, muitas protegidas atrás de anonimato.
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