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A economista que tenta entender a insatisfação dos brasileiros sob Lula: 'Redes

Crédito, Bloomberg via Getty Images Article Information Author, Thais Carrança Role, Da BBC News Brasil em São Paulo Published Há 16 minutos Tempo de leitura: 16 min O

A economista que tenta entender a insatisfação dos brasileiros sob Lula: 'Redes
Consumidores observam a vitrine da loja Animal no Shopping Village Mall, no Rio de Janeiro.

Crédito, Bloomberg via Getty Images

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    • Author, Thais Carrança
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Published Há 16 minutos
  • Tempo de leitura: 16 min

O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vive um paradoxo.

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O desemprego está nas mínimas históricas (em 5,6% em maio deste ano, menor patamar para o mês desde o início da série histórica), a economia cresce acima das expectativas— 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025— e 17,5 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2022 e 2024.

Ainda assim, 44% dos entrevistados na pesquisa Genial/Quaest de junho afirmam que a economia do país piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% dizem que melhorou.

A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o "Conselhão" de Lula, tem se dedicado a entender esse descolamento. Leia também: Haaland ou Vini Jr? No interior de Goiás, norueguesa adotou o Brasil

Como parte desse esforço, ela lançou recentemente o artigo "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", em coautoria com seu marido e também economista Guilherme Klein Martins, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para a dupla de economistas, quatro fatores principais estariam por trás desse descompasso: a inflação e seus efeitos persistentes sobre o bem-estar; a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, durante os dois primeiros governos Lula; a mudança nos desejos de consumo da população, impulsionada em grande medida pelas redes sociais; e a frustração de uma geração escolarizada que não encontra empregos compatíveis com a sua formação.

"Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa Carvalho, em entrevista à BBC News Brasil.

"Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país. E então os desejos, as aspirações, vão se homogeneizando e se globalizando de uma forma muito rápida e única na história, com uma sensação de insatisfação saindo daí", afirma.

Para a professora da USP, esse é um dos fatores que talvez expliquem a diferença entre o sentimento da população nos anos 2000, durante os governos Lula 1 e 2, e no atual governo.

"Ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de consumo", diz Carvalho. Leia também: Eliminado pela Noruega de Haaland, Brasil vê futuro de Ancelotti como incerto

Também diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundation, Laura Carvalho lançou em 2018 o livro Valsa Brasileira, em que analisou os motivos que levaram a economia do país da prosperidade (2006-2010) a uma das piores recessões de sua história (2014-2017).

Na entrevista à BBC News Brasil, a economista analisa por que a desigualdade no Brasil segue sendo uma das maiores do mundo, mesmo diante do elevado gasto do governo com políticas sociais nos últimos anos. E propõe uma agenda para devolver o país a um novo ciclo de prosperidade.

Segundo ela, isso passa por uma expansão dos serviços públicos e diversificação da economia para gerar empregos qualificados para absorver a crescente população escolarizada. Mas também pelo avanço da agenda de tributação, iniciada com a reforma do Imposto de Renda.

"O debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza", defende.

"A concentração de riqueza é mais elevada do que a da renda, o que faz com que a desigualdade se perpetue— e ela se perpetua também no sistema político. Porque a influência daqueles que estão nesse topo [de renda] é muito desproporcional e, com isso, atua para preservar a estrutura atual."

Laura Carvalho veste uma blusa verde de cetim e mangas longas, e tem os braços cruzados. Ela olha para a câmera com um sorriso discreto
Legenda da foto, 'Debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza', defende professora Laura Carvalho, da FEA-USP e membro do 'Conselhão' de Lula
Manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, pedindo pela taxação dos super-ricos, o fim da escala 6x1 e condenando o tarifaço dos EUA sobre o Brasil. Em 10 de julho de 2025
Legenda da foto, 'Taxar a renda pode até frear a concentração, mas não corrige o que historicamente acumulou', diz Carvalho, ao defender a taxação do patrimônio
Um cliente empurra um carrinho em um supermercado.
Legenda da foto, 'Vivemos um período no mundo inteiro de sucessivos choques inflacionários desde a pandemia, depois a guerra na Ucrânia, e agora um terceiro com a guerra no Irã', afirma a economista Laura Carvalho em entrevista à BBC News Brasil
Passageiros embarcando em avião da companhia aérea Azul num dia de céu sem nuvens
Legenda da foto, Nos anos 2000, muitos brasileiros foram incluídos no mercado de consumo, mas essa 'nova classe média' já não se satisfaz com o mesmo padrão de consumo
Lula e Laura Carvalho durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável, conhecido como "Conselhão"
Legenda da foto, 'Precisamos chegar num ponto em que as pessoas se sintam satisfeitas, que o salário no fim do mês seja suficiente para dar vazão àquilo que elas entendem como um padrão de vida confortável', diz Carvalho (na foto, com Lula em reunião do 'Conselhão')
Estudantes universitários
Legenda da foto, 'Passamos a ter uma geração inteira de pessoas com diploma universitário que hoje procuram empregos num nível de qualificação maior do que os seus pais tinham', afirma a economista Laura Carvalho
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