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A Casa do Dragão: quando estreia a 3ª temporada na HBO Max?

Game of Thrones da vida real: a guerra que inspirou a série da HBO Por Rafael Rodrigues da Silva | • O inverno chegou, e a Longa Noite está acabando: no próximo domingo

A Casa do Dragão: quando estreia a 3ª temporada na HBO Max?

Game of Thrones da vida real: a guerra que inspirou a série da HBO Por Rafael Rodrigues da Silva | •

O inverno chegou, e a Longa Noite está acabando: no próximo domingo (18) a HBO irá transmitir o último episódio de Game of Thrones, colocando um ponto final na série que foi um dos grandes fenômenos culturais dos últimos anos e muito provavelmente a última série de TV em que nos reunimos em volta do aparelho e sentimos a necessidade de assistir ao episódio no momento em que ele é transmitido. O fim de Game of Thrones é um marco não apenas para a TV— pois é o fim da produção mais cara e expansiva já produzida para a mídia— como também o possível fim de um modo de assistir TV, em que nos sentíamos compelidos a, em determinado dia e hora, parar tudo que estivéssemos fazendo em nossas vidas e dedicar a próxima hora olhando atentamente para aquela tela. Por isso, durante as próximas duas semanas, faremos uma série de matérias especiais aqui no Canaltech sobre Game of Thrones como forma de nos prepararmos para o fim e entendermos as implicações que as escolhas tomadas pela série terão para os potenciais livros que George R.R. Martin ainda irá lançar.

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AVISO DE SPOILER: Esta matéria pode conter spoilers das sete primeiras temporadas de Game of Thrones. Então, se você não está em dia com a série, proceda com cautela.

Baseado na série de livros A Canção de Gelo &; Fogo, Game of Thrones é, sem dúvidas, uma série de fantasia: afinal, estamos no mundo em que a magia pode tanto matar alguém como ressuscitá-la dos mortos, onde há dragões do tamanho de ônibus voando e cuspindo fogo por aí, e o qual é ameaçado por um exército de zumbis.

Então, sim, Game of Thrones é uma história de fantasia. Mas, para muitos fãs, esse nem é o ponto mais interessante da série ou dos livros, mas sim a complexidade da narrativa, que foge dos temas maniqueístas da maioria das histórias clássicas de fantasia e nos apresenta a um jogo de intrigas políticas onde todos os personagens operam em “tons de cinza”, nenhum deles sendo totalmente mau ou totalmente bom— muito mais parecidos com qualquer pessoa real que conhecemos do que com aquela ideia que possuímos de “heróis” e "vilões”. Mais do que os elementos de fantasia, podemos claramente afirmar que foi essa complexidade que fez os livros figurarem durante anos na lista das obras de ficção mais vendidas Leia também: Netflix: lançamentos da semana (8 a 14 de junho)

doThe New York Times e que fez com que a série da HBO se tornasse o fenômeno global que é hoje. Mas, assim como na natureza, a arte também segue a famosa regra de Lavoisier, onde “nada se cria, tudo se transforma”. Claro, essa complexidade toda das intrigas familiares pelo trono e personagens que não se encaixam no estereótipo típico de heróis e vilões se parece com o tipo de coisa que vemos no mundo real porque, basicamente, foi inspirado no mundo real.

E, ainda que Martin não tenha se inspirado apenas em um único evento ou uma única parte da história do mundo para criar Westeros e toda a narrativa de Game of Thrones, o próprio autor admite que existe um evento real que serviu de “linha mestra” para sua história e que inspirou muitos dos personagens e tramas que existem nela: a Guerra das Rosas. Game of Thrones da vida real A Guerra das Rosas foi uma série de lutas entre duas famílias (os York e os Lancasters) pelo trono da Inglaterra que ocorreu durante o século XV.

Esses conflitos ficaram conhecidos como Guerra das Rosas por causa dos símbolos de cada uma das famílias envolvidas: enquanto os York tinham uma rosa branca como símbolo de sua Casa, os Lancasters utilizavam uma rosa vermelha. Já no título dos livros é possível perceber como o confronto influenciou a narrativa de Martin: assim como na Guerra das Rosas, o título

A Canção de Gelo & Fogo deixa claro que se trata de uma narrativa de contrastes, uma dualidade que sempre irá existir até que alguém possa uni-las— assim como aconteceu no conflito inglês, que só chegou ao fim quando alguém conseguiu unir ambas as Casas por casamento, colocando membros de ambas no poder e finalizando de uma vez o confronto. Também é fácil entender a inspiração para o nome das duas casas com maior histórico de conflitos em Westeros, já que os Lannisters possuem um nome bem parecido com o dos Lancasters, e os Starks um que foneticamente é bem parecido com os York.

Oficialmente, a Guerra das Rosas durou entre 1455 e 1485, mas as raízes remontam ao século anterior, com a morte do Rei Eduardo III em 1377. Quando um rei morre, o costume é que seu primogênito assuma o trono como o próximo soberano. Mas, no caso de Eduardo, seu primogênito, Eduardo IV, conhecido também como “ Mais de tecnologia

O Príncipe Negro”, já havia morrido no ano anterior (1376). Foi esse o estopim para o início das brigas familiares: por uma manobra dos conselheiros do antigo rei, quem acabou assumindo o trono foi Ricardo II, o quinto na linha de sucessão e que, na época, tinha apenas dez anos de idade— deixando seus três irmãos mais velhos ainda vivos justificadamente sentindo que haviam sido enganados. A escolha foi feita pelo motivo de, por ser ainda uma criança, os antigos conselheiros sabiam que ele seria mais facilmente manipulado e, na prática, seriam eles quem governariam a Inglaterra.

Como era de se esperar, deixar os três irmãos mais velhos fora do trono causou uma rixa na família. Não apenas os irmãos de Ricardo II, mas também os filhos deles, se sentiam com mais direito ao trono do que o atual rei. Esse sentimento era mais forte entre duas linhagens da família: os Lancasters (descendentes diretos do terceiro filho do rei Eduardo III, e que deveria ter assumido o trono com a morte do pai caso a linha de sucessão fosse respeitada) e os Yorks (descendentes diretos do quarto filho do Rei Eduardo III).

Apesar dos clamores pelo trono, o Rei Ricardo II conseguiu se manter no poder por 22 anos, até que, em 1399, ele foi deposto pelo seu primo, Henrique IV, da Casa Lancaster. Henrique IV se manteve no poder até 1413, quando seu filho, Henrique V, assumiu o trono com após sua morte. A situação da família real se manteve estável até 1422, quando Henrique V foi inesperadamente morto em batalha e deixa como herdeiro apenas um filho, Henrique VI, que na época não tinha ainda nem um ano de vida. Leia também: Amazon Prime Video: lançamentos da semana (8 a 14 de junho)

Por conta de já ter praticamente nascido com todas as responsabilidade de um soberano, Henrique VI se tornou uma pessoa sem opinião e que fazia basicamente tudo o que seus assessores pediam e, em 1445, ele foi convencido a se casar com Margarida de Anjou, filha do Rei Renato I de Nápoles. Margarida é a primeira personagem a aparecer na Guerra das Rosas que serviu de influência para um das protagonistas de Game of Thrones. Assim como Cersei Lannister, Margarida de Anjou era primariamente conhecida por sua beleza, mas desde que chegou ao poder ela revelou uma ambição pelo trono que os conselheiros de Henrique VI não esperavam e em diversos momentos foi extremamente cruel e violenta para conseguir satisfazer seus desejos e alcançar seus objetivos— e mesmo que originalmente fosse uma estrangeira, essa ambição a tornou a chefe da Casa Lancaster durante todo o período da Guerra.

Além de sua ambição por poder e da disposição em fazer qualquer coisa para mantê-lo, há um outro traço que aproxima Margarida de Cersei: a desconfiança que ambas tinham do melhor amigo do rei. No caso de Henrique VI, o melhor amigo dele era o duque Ricardo de York, personagem histórico no qual Martin se inspirou para criar Ned Stark, pois Ricardo era um guerreiro honrado que valorizava a amizade com o rei e que faria de tudo para protegê-lo daqueles que queriam apenas manipulá-lo para lhe roubar o trono. Durante praticamente todo o reinado, York havia sido o melhor amigo do rei e um de seus generais mais leais, mas desde que Henrique VI se casou com Margarida, a nova rainha se esforçava para afastá-los.

Durante esse período, a Inglaterra ainda lutava contra a França na Guerra dos Cem Anos (conflito entre os dois países que se iniciou em 1337 e que só chegaria ao fim em 1453), e Ricardo era um dos maiores críticos de se manter as hostilidades durante todo esse tempo. Por causa dessas críticas e manipulado por Margarida, Henrique VI “baniu” o seu melhor amigo e leal conselheiro para a Irlanda. Durante o período que Ricardo ficou isolado do contato com o trono, a Inglaterra passou por um de seus piores momentos, acumulando derrotas militares contra a França e vendo seu povo sofrer de fome com os altos impostos cobrados pelo governo corrupto de Margarida.

No meio de todo esse caos, Ricardo retornou para a capital junto com um exército, com o objetivo de prender o Duque de Somerset (um dos mais leais aliados da Rainha Margarida) e trazer de volta a prosperidade para o povo da Inglaterra. Ricardo escolheu esse momento pois a Guerra dos Cem Anos havia acabado com a vitória da França, e ele viu nisso a oportunidade perfeita de encontrar Margarida e seus assessores enfraquecidos com a perda da Guerra e fazer com que o Rei Henrique VI percebesse o que eles estavam fazendo com o país. Infelizmente, a perda da Guerra e a chegada de seu melhor amigo com um enorme exército na cidade foi demais para o monarca, que sofreu um colapso nervoso e ficou praticamente em estado vegetativo durante quase dois anos.

Neste período, Ricardo foi condecorado como Regente da Coroa (uma posição equivalente a ser Mão do Rei em Game of Thrones) e ajudou a tentar restabelecer a ordem no país no período. O problema é que quando o Rei Henrique VI se recuperou de seu colapso em 1455, a Rainha Margarida não apenas o convenceu a tirar Ricardo da regência, mas também a desfazer todas as mudanças que ele havia proposto para o país. Ricardo então, mais uma vez, saiu da capital e voltou com um exército para tentar botar ordem em tudo.

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