- Author, Vitor Tavares e Fernando Otto
- Role, Enviados da BBC News Brasil a Foz do Iguaçu, Paraná
- Há 1 hora
- Tempo de leitura: 10 min

Crédito, Fernando Otto/BBC
Quando a agente da Receita Federal na fronteira entre o Brasil e o Paraguai sinalizou ao mototaxista que parasse, o nervosismo de Mariane, na garupa, já chamava atenção.
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Suando e com as costas curvadas, a advogada de 42 anos explicava na Alfândega de Foz do Iguaçu, no Paraná, que só tinha comprado no país vizinho um pote grande de Nutella. Ela estava mentindo.
A embalagem apontava serem de retatrutida, uma molécula experimental em fase de testes que ainda não foi aprovada para uso humano ou para ser vendida em lugar nenhum no mundo.
Mas produtos que dizem ter o novo medicamento já são vendidos livremente no Paraguai, de onde são trazidos em grandes quantidades para o Brasil. Também é fácil encontrar formas de comprar pelas redes sociais. Leia também: Trump diz que não estava preocupado durante ataque em jantar
"Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim", afirmou Mariane à BBC News Brasil ao ser flagrada com o produto. Seu nome real foi preservado nesta reportagem.
A advogada conta que começou a usar canetas do Paraguai há seis meses e que já conseguiu perder mais de 20 kg.
Ela diz que comprava de um vendedor que conheceu nas redes sociais e que entregava em sua casa, em São Paulo, mas resolveu ir por conta própria pela primeira vez ao Paraguai. Assim, conseguiria economizar mais de R$ 300 por unidade.
"Com o preço no Brasil, eu não consigo manter meu tratamento. Agora, vou ver o que fazer", disse Mariane, antes de ser autuada pela Receita e liberada para fazer o caminho de volta à capital paulista.
A retratutida ainda está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly, criadora e detentora da patente do produto. A expectativa em torno dela é grande, porque os testes iniciais mostraram um potencial de promover um emagrecimento ainda mais rápido do que as canetas campeãs de venda desse mercado, de semaglutida (Ozempic) e de tirzepatida (Mounjaro). Mais de mundo
Não há previsão da empresa sobre quando o produto vai chegar de fato ao mercado.

Crédito, Fernando Otto/BBC
Na Alfândega de Foz do Iguaçu, porém, há apreensões diárias de "retatrutida" feitas pelos agentes da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Leia também: 'Eu estava na sala com Trump e ouvi o som dos tiros': o relato do correspondente da BBC que testemunhou ataque
Elas se somam às apreensões de vários tipos de canetas e ampolas de medicamentos emagrecedores com outros princípios ativos — especialmente, a tirzepatida—, que também são proibidas pela Anvisa de entrar no Brasil.
Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras já superam, em valor, todo o ano de 2025 no Paraná, Estado onde as autoridades brasileiras realizaram o maior número de operações para tentar conter a entrada ilegal destes medicamentos no país. Foram mais de R$ 11 milhões em apreensões em três meses do ano.
Também há número relevante de apreensões em São Paulo e Mato Grosso do Sul, que também faz fronteira com o Paraguai.
Em Foz do Iguaçu, as canetas já são o segundo produto mais apreendido do ano, depois do celular, segundo a Receita. E as canetas de retatrutida já equivalem a quase 10% do total de apreensões desse tipo de produto em todo o Paraná, segundo dados obtidos pela BBC News Brasil.
"A gente fica muito preocupado. É um produto totalmente irregular, e que a gente está percebendo que as pessoas falam muito disso no Brasil e nas redes sociais", diz Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita em Foz do Iguaçu.
Em fase de testes

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