Saúde: Panorama da semana sobre bem-estar e cuidados
Ler matéria →A boca inflama o coração: a relação entre gengiva e risco cardíaco Evidências científicas demonstram que a doença periodontal eleva em até 30% o risco de problemas cardíacos Estudos epidemiológicos mostram que pessoas com doença periodontal têm um risco aproximadamente 20% a 30% maior de desenvolver doenças cardiovasculares quando comparadas àquelas com gengivas saudáveis. O dado, cada vez mais consistente na literatura científica, ajuda a mudar a forma como entendemos a prevenção das doenças do coração: elas também podem começar pela saúde bucal.
Durante muito tempo, a odontologia foi vista como uma área separada da medicina, com prática restrita as quatro paredes do consultório. Hoje, porém, a ciência caminha na direção oposta. Evidências acumuladas nas últimas décadas mostram que o organismo funciona de maneira integrada, e que inflamações crônicas na boca podem repercutir muito além do sorriso.
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Um estudo publicado na Revista da Socreforça essa conexão ao analisar 22 pesquisas nacionais e internacionais que investigaram a relação entre saúde bucal, qualidade de vida e doenças cardiovasculares. O trabalho evidencia que condições como doença periodontal, infecções odontogênicas e hábitos de vida inadequados contribuem para processos inflamatórios sistêmicos associados ao desenvolvimento e à progressão de problemas cardíacos. O tema é tão relevante que foi amplamente abordado por cardiologistas e cirurgiões-dentistas no 46º Congresso da Socesp, que ocorreu de 4 a 6 de junho, em São Paulo. Leia também: Blanching ganha destaque após novo desdobramento em blanching: para que serve
+ Saúde bucal vai além da ausência de dor A saúde bucal não significa apenas ausência de dor ou de cáries.
Trata-se de um estado que envolve bem-estar físico, mental e social, diretamente conectado à saúde do organismo como um todo. Os cuidados básicos continuam sendo fundamentais: higiene bucal adequada, alimentação equilibrada, evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool e realizar consultas periódicas ao cirurgião-dentista. Essas medidas, aparentemente simples, têm impacto que ultrapassa a cavidade bucal.
A principal protagonista dessa relação é a doença periodontal, uma inflamação crônica da gengiva que pode evoluir para perda óssea e até dos dentes. Estudos realizados em diferentes países e populações, inclusive no Brasil, mostram repetidamente a mesma tendência: indivíduos com gengivas inflamadas apresentam maior risco cardiovascular, em várias frentes: doença arterial coronariana, associada ao infarto; acidente vascular cerebral (AVC); aterosclerose; endocardite infecciosa;
entre outras. O debate científico atual já não questiona mais a existência da conexão, mas busca entender seu peso exato. Pesquisadores investigam se a doença periodontal atua como fator de risco independente ou se compartilha causas comuns com problemas cardíacos, como diabetes, obesidade e tabagismo. Mais de saude
Como a gengiva inflamada afeta o coração Três mecanismos principais ajudam a explicar essa relação biológica: 1. Inflamação sistêmica: a doença periodontal provoca uma inflamação crônica que libera mediadores inflamatórios na corrente sanguínea, favorecendo a formação e progressão da aterosclerose, o acúmulo de placas nas artérias.
2. Disseminação bacteriana: bactérias presentes na gengiva inflamada podem alcançar o sangue e já foram identificadas em placas ateroscleróticas, sugerindo participação direta no processo vascular. 3. Leia também: Saúde: Panorama Semanal - Ozempic Nacional e Novas Terapias
Resposta imunológica cruzada: a inflamação pode causar disfunção endotelial, uma alteração precoce na parede dos vasos sanguíneos considerada etapa inicial das doenças cardiovasculares. Tratamento periodontal traz benefícios além da boca Embora ainda sejam necessários estudos de longo prazo para medir o impacto direto na redução de eventos cardiovasculares, os resultados atuais já são animadores. Pesquisas mostram que o tratamento periodontal é capaz de reduzir marcadores inflamatórios no sangue, melhorar a função dos vasos sanguíneos e contribuir para o controle glicêmico em pacientes diabéticos, atores importantes para a saúde cardiovascular.
A principal mensagem trazida pelas evidências científicas é clara: a boca não é um sistema isolado. Inflamações persistentes não permanecem restritas à gengiva e podem influenciar todo o corpo. Assim, estratégias modernas de prevenção cardiovascular passam cada vez mais por uma abordagem multidisciplinar, envolvendo cardiologistas, dentistas e outros profissionais de saúde.
Cuidar da saúde bucal deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser uma atitude concreta de proteção ao coração. * Frederico Buhatem de Medeiros é odontologista e assessor científico do Departamento de Odontologia da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
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